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Clube Filatélico de Portugal

As primeiras emissões da Guiné Portuguesa PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Escrito por Luís Frazão   
Sexta, 25 Setembro 2009 23:17

 

 

As primeiras emissões da Guiné Portuguesa

                                                                                                                                                                                                             Frazão                                                                                                                                                            Luís Frazão

 

 

1 - Introdução

Os apreciadores de história postal ultramarina, e em particular da Guiné Portuguesa, foram em 2004/5 brindados com um livro[1], seguido por uma conferência proferida no Clube Filatélico de Portugal, e para terminar com um artigo resumo publicado no boletim Nº408 do C.F.P, todos da autoria de Oliveira Pinto, e versando sobre a cronologia das primeiras emissões postais da Guiné

Em qualquer uma das suas intervenções, pretendeu o autor demonstrar que os selos da Guiné com a sobrecarga pequena foram os primeiros a circular na província, em meados de 1879, após a autonomia desta em relação a Cabo Verde.

Assim o disse e escreveu ainda no último Boletim:

«..Eu, de consciência tranquila e absolutamente convicto, aqui afirmo que a primeira emissão de selos da Guiné como província autónoma foi a emissão com sobrecarga pequena».

 

2 - Objectivo do presente trabalho

O objectivo destas linhas é o de mostrar, que com base no notável trabalho de investigação levado a cabo por Oliveira Pinto, de que resultou a apresentação de dados inéditos apresentados no livro atrás referido, assim como com as provas postais indiciadoras apresentadas em defesa da tese, não é lícito afirmar que os selos da Guiné pequena tenham sido os primeiros a ser emitidos.

Mais ainda, e na continuação do trabalho efectuado pelo autor destas linhas, cada vez mais parece plausível admitir que os “Guiné pequena” somente tenham aparecido em meados de 1882, para justificação administrativa, e não para fins postais.

O facto de se conhecerem três cartas «especiais (dirigidas a Marsden)» franqueadas com estes selos, não lhes confere o estatuto de selos postais, pois como tentaremos demonstrar consideramo-los como “Não Emitidos”.

 

3 - Os indícios de Oliveira Pinto

3.1

Vamos começar por analisar um «indício», que no dizer de O. Pinto, e citamos:

«O selo de 100 réis, Guiné pequena, com data de 1879, que se reproduziu no livro acima, anima, mas não pode ser considerado decisivo». 

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Figura 1
 

Este selo, vendido como lote 536 da colecção de George Pearson, vem ilustrado a paginas 143 do livro referido, e embora diga que não pode ser considerado como prova decisiva, é ilustrando em abono da teoria defendida, indo ao ponto de escrever «com carimbo de 1879, talvez Novembro, dada a dificuldade em ler o mês».

Quer isto dizer que O. Pinto data o carimbo de 1879, propondo como data o mês de Novembro.

 

Conclusão de O.Pinto. Estamos perante um selo Guiné Pequena, de procedência acima de qualquer suspeita, obliterado com uma marca datada de Bissau de 1879, com dúvidas apenas na leitura do mês. Admitido este facto, permitiria situar os Guiné Pequenas ainda em 1879!

 

O que sabemos nós sobre a marca em questão, e sobre as marcas utilizadas em Bissau, nos primeiros tempos da época adesiva?

Por analogia com as restantes províncias ultramarinas, e em especial com Cabo Verde, de quem a Guiné dependia administrativamente, eram os selos colados nas cartas inutilizados com uma marca muda, sendo a partir de determinada altura também aplicada na carta um carimbo de data completa. Tal foi o caso de S. Vicente e de S. Tiago,  pelo menos nos anos de 1876 a 1880.

A carta que se ilustra na figura 2 constitui um exemplo do que acabamos de dizer.

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Figura 2
 

A partir de 1881(?), passou a dispensar-se a utilização de duas marcas, passando o datador a servir também para inutilizar os selos. E como era feita esta operação na Guiné?

A única carta que se conhece desse período, datada de Dezembro de 1881, é a que se apresenta na figura 3, e onde se constata haver uma marca não datada para inutilizar os selos, assim como a aplicação do datador de Bissau.

 

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Figura 3
 

A análise dos selos avulsos revela uma situação análoga, isto é, os selos de Cabo Verde, sem qualquer sobrecarga (utilizados na Guiné desde Janeiro de 1877 até finais de 1879), aparecem inutilizados em Bissau, na altura capital da província, pela mesma marca da carta, primeiro batida a azul e depois a preto, seguindo-se os Guiné Grande ainda com a mesma inutilização.

Analisemos mais em pormenor a marca datada Bissau/data/Guiné. Os meses são escritos ou abreviados do seguinte modo:

Jan.     Fev.     Março     Abril     Maio     Junho     Julho     Agos.     Set.     Out.     Nov.     Dez.
 
 data1     data2     data3     data4
 

Temos meses abreviados de 3 letras, meses completos de 5 letras, um abreviado e um completo de 4 letras. A leitura do mês do carimbo da figura 1, dado que é constituído por quatro letras das quais a última é um O, é relativa ao mês de Maio, nunca podendo ser de Agosto em diante.

Quanto à leitura do ano, aí o problema é ainda mais significativo, dado que a leitura que O.Pinto nos propõe é de 1879.

Embora o primeiro algarismo pareça um 7, e o segundo se possa admitir ser um 9 (nenhum outro seria possível!), parece-nos arriscada esta leitura, e por várias razões.

Conhecemos um exemplar do mês de Agosto do ano de 79, ilustrado na figura 4, a obliterar um selo de 100 réis Guiné Grande, o que constitui uma manifesta impossibilidade dado que a primeira remessa de Lisboa (mesmo admitindo que nesta vinham Guiné Grandes), somente chegou em finais de Novembro.

Carimbo de favor? Erro de data? Optamos claramente por esta ultima hipótese, que aliás não é inédita neste carimbo.

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Figura 4
 

E mesmo admitindo que os argumentos que avançámos atrás sobre a provável não utilização da marca datada em 1879 não devam ser considerados, propomos a comparação desta data proposta de 79 com a de 85; o 7 facilmente se torna num 8 e o 9 num 5.

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Desenho 1
 

Conclusão: A obliteração no selo apresentado como «prova» e apresentada como de 1879, não é desse ano,  pelo que não pode servir de ajuda à teoria proposta por O. Pinto.

È ainda de realçar que a marca em estudo, foi utilizada para carimbos de favor sobre selos da emissão de D. Luís, pelo que não é de excluir a sua utilização abusiva sobre selos do tipo Coroa. A marca que se apresenta na figura 5, onde se pode ler claramente a data de 11 Março de 1880, aplicada sobre selos de Cabo Verde[2], pode ser indiciador do começo da utilização desta marca em 1880.

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Figura 5

 

3.2

A primeira das “Provas” que O. Pinto apresenta como tal é:

«O primeiro documento com interesse que se conseguiu (no A.H.U), foi o que se reproduz na figura.

E só com base na sua existência vamos tentar alicerçar as conclusões desta Parte I, isto é, que os selos Guiné, pequena sobrecarga, devem ser considerados os primeiros e reportados a 1879.»

O documento a que o autor se refere e que se transcreve do original diz:

«Para: Director do Correio de Bissau.

Illmº. Sr. Determina sua Ex.ª o Governador do distrito que Vª Sª envie para o Correio de Bolama as estampilhas de sello e postais ora existentes no correio a cargo de Vª Sª. Deus guarde Vª.Sª. Secretário do Gº da Guiné em Bissau, 22 de Abril de 1879»

É com base neste documento chave que Oliveira Pinto baseia a sua teoria da recolha dos selos a Bolama para mais tarde virem a ser sobrecarregados, pois como escreve:

«Os selos idos de Cabo Verde devem ter chegado em Fevereiro de 1879, e depois distribuídos a Bissau antes de 18 de Março, foram, face à ordem recebida, para os correios de Bolama em Maio -  Junho, e destes para a imprensa para serem sobrecarregados em Junho - Julho, já que desde 21 de Junho havia director que veio da imprensa de Cabo Verde onde se faziam carimbos para os Correios conforme se pode constatar da consulta dos B.O. de Cabo Verde.» (pagina 51 do artigo no B.C.F.P e pagina 167 do livro).

O decreto de elevação da Guiné a província é datado de Lisboa de 18.03.1879, e a 27 desse mesmo mês é nomeado em Lisboa o major Agostinho Coelho para 1º Governador da província da Guiné Portuguesa. A notícia da autonomia, assim como o governador, terão chegado a Bissau, vindos de Cabo Verde a 20 de Abril desse ano, tendo o novo governador tomado posse a 2 de Maio.

O ofício que acima se reproduz, datado de 22 de Abril, ainda é da responsabilidade do Governador Francisco Tavares de Almeida Júnior, na sua qualidade de governador do distrito (ainda não da Província).

Parece altamente improvável, que o governador cessante, dois dias após a chegada do seu sucessor, e dias antes de ceder o seu cargo, tenha mandado recolher os selos (fiscais e postais) a Bolama, sendo a sede do governo ainda em Bissau, com o objectivo de os mandar sobrecarregar.

A leitura do texto acima mostra que não foram só os selos postais que foram mandados recolher, o mesmo se aplicando aos selos fiscais.

Estes últimos já se conhecem utilizados com a sobrecarga Guiné Portugueza, em letras pequenas (aplicada na casa da Moeda) em Agosto de 1879!

Ainda se pode acrescentar, que do estudo sobre a imprensa da Guiné, feito por O. Pinto no capítulo IV do livro referido, tudo aponta para o mês de Junho/ Julho para início desta nova actividade, necessária para a publicação do Boletim Oficial. Como se pode imaginar, que dois meses antes se tivessem mandado recolher selos para serem sobrecarregados?

Conclusão: Sabemos ao certo que a 22 de Abril de 1879 houve um ofício para o envio dos selos de Bissau para Bolama, mas não sabemos qual o motivo para esta determinação, nem qual o destino dado a estes selos.

A leitura do livro 082, intitulado «Fundo da Guiné - Correspondência expedida das Secretarias do Governo para diversas entidades, 1878/9», de onde foi retirado o texto acima, permite verificar, que os diplomas que antecedem o acima transcrito, assim como os que lhe são posteriores, se referem á transferência da capital de Bissau para Bolama, e específicamente à mudança de pessoal, livros, arquivos, etc, para a nova capital.  Não seria de estranhar que o texto acima se refira também á transferência do stock de selos postais e fiscais.

Pensamos ter assim demonstrado a invalidade de duas das provas apresentadas por Oliveira Pinto, em defesa da  teoria que os selos da Guiné, sobrecarga pequena, foram emitidos em 1879. Se não foram em 1879, então quando foram feitas as sobrecargas e com que finalidade?

 

4 - Os selos da Guiné com a sobrecarga pequena.

 

 

Quais são os FACTOS conhecidos e documentados sobre os selos com esta sobrecarga?

 

1.       A ordem do Governador, datada de 28 de Junho de 1882, para que em selos de C. Verde fosse timbrado Guiné em letras pequena.

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Inserção 1
 

2.       A notícia no Timbre Poste, datada de Novembro de 1882, onde pela primeira vez se ilustra uma sobrecarga Guiné em letra pequena, referindo ser conhecida nas taxas de 200 e de 300 réis.

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Inserção 2
 

3.       A existência de 3 cartas circuladas, todas dirigidas a Marsden, em Lisboa, posteriores a 1885. (Fig 6.1, 6.2 e 6.3)

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Figura 6.1
 
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Figura 6.2
 
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Figura 6.3
 

 

Quais são os ESCRITOS contemporâneos (não podendo ser tomados por Provas), relativos a estes selos que Marsden avança:

a.       Que a caminho da Guiné, em Maio de 1884 passou por Lisboa, e que o principal comerciante português da altura, Faustino Martins, tinha uma meia dúzia de exemplares, e que se referiu a eles como a um ensaio provisório.

b.       Que uma vez em Bolama e depois em Bissau, onde passou a residir, tentou saber algo sobre estes selos, que ninguém conhecia, nem mesmo o governador.

c.       Que em Bissau encontrou uma carta franqueada com selos Guiné Pequena, dirigida ao padre de Bissau, expedida por Cleto da Costa, responsável pelo correio do Cacheu.

d.       Que na sequência desta descoberta, comprou a Cleto da Costa todo o stock de selos «Guiné pequena» que este dispunha, no que despendeu uma verba de £20

Com base no que atrás sistematizamos, «vamos admitir que»:

1.       Para não devolver a C. Verde os selos desta província que estavam à carga da Fazenda da Guine, determinou em 1882 o governador que nestes fosse aposta uma sobrecarga (“fossem timbrados”), que os identificasse como sendo da Guiné. Esta operação não tinha como objectivo suprir qualquer falta de selos, e muito menos criar uma variedade filatélica, mas somente legalizar administrativamente uma situação que perdurava, e assim não ter que entrar em operações de contabilidade inter provinciais.

2.       Não sabemos quando, nem porque motivo, foram estes selos enviados e postas à carga do correio do Cacheu, mas é de presumir que em 1884 já lá se encontravam.

3.       No período anterior a 1885, nunca foram utilizados em qualquer outro correio a não ser no Cacheu (e neste caso somente sabemos de uma carta interna para Bissau referida por Marsden.)

4.       Quando Marsden os comprou, provavelmente não saberia da impossibilidade da sua utilização postal.[3]

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Figura 7
 

                Posteriormente e em condições por esclarecer conseguiu a necessária autorização de utilização dos Guiné pequena, mas somente em cartas que lhe eram dirigidas.

                È o mesmo Marsden que refere ter sido autorizado a franquear cartas com os selos da 2ª emissão tipo Coroa que não foram enviados para a Guiné. 

Conclusão. Todos os indícios parecem apontar para uma sobrecarga administrativa dos selos de Cabo Verde em depósito na Juntas da Fazenda, pedida e autorizada pelo Governador em meados de 1882. Parece-me que estamos em presença de uma sobrecarga feita sem intenção postal, portanto os selos são não emitidos, enviados para o Cacheu em data e condições por esclarecer, que posteriormente (em finais de 1885) e em condições que não pudemos determinar, foram utilizados para fins postais por Marsden.

 

5 - As contas do Correio da Guiné, na óptica do General Oliveira Pinto

Não foi senão de animo leve, que decidimos incluir neste trabalho um capítulo dedicado á análise das contas do correio da Guiné, na óptica das remessas e das receitas, tal como foram apresentadas no livro já referido. E se (só) agora o fazemos, são duas as razões para tal:

1.       Nem na conferência em 2005 no Clube Filatélico Portugal, nem no artigo publicado no Boletim do C.F.P, lhes faz O. Pinto qualquer referência.

2.       Porque o não lhe fazer referencia agora, permitiria que não foi tida em conta nesta crítica a PROVA mais importante, tão importante que no livro merece todo um capítulo, para além de várias referências.

No dizer do seu autor, e a páginas 138, escreve:

                «À falta de qualquer documento que especificasse as compras feitas por Marsden (no Cacheu), elaboramos um quadro com remessas e receitas no período de 1879/1886, que apresentamos no fim deste ponto, afim de ver se conseguimos encontrar algum indício que nos permita concluir um acréscimo súbito de vendas, que nos levasse também a concluir que essa alteração tinha sido consequência das compras de Marsden».

Mas não se iluda o leitor. Não era para confirmar um facto por demais conhecido, e senão documentado, pelo menos facilmente demonstrável pelas contas do CACHEU[4], que Oliveira Pinto, se deu a este trabalho. Por detrás desta confirmação, havia um ponto mais importante. E citamos de novo, da página 138: «A afirmação (da compra das sobrecargas pequenas) merecia credibilidade, já que Carlos George era amigo de Marsden e além disso interessava-nos porque, se fosse verdade, então em 1882, não podiam ter faltado selos na Guiné que justificassem a necessidade da sobrecarga, caso contrário não haveria sobras em 1885 para Marsden comprar. E interessava-nos ainda mais depois de sabermos que em 1882 só foram sobrecarregados selos das taxas de 200 e de 300 réis, como no capítulo seguinte veremos, o que impunha como conclusão lógica que todos os outros selos existentes tinham de ter sido sobrecarregados antes daquela data.»

E para que não restasse a menor dúvida do ponto principal onde pretende chegar, remata na página 139:

                               «Este quadro permite-nos concluir:

                               - E finalmente que no ano económico 1884/5 se verifica o seguinte:

                               Vendas acumuladas de selos                                     3.094$277

                               Selos recebidos da C. da Moeda                              3.069$750

Daqui resulta que os Correios só poderiam ter vendido mais que a totalidade das importâncias relativas às remessas de selos pela Casa da Moeda com recurso à venda dos selos recebidos de Cabo Verde.

                   Já vimos que em Agosto, Setembro e Outubro de 1879, as vendas totalizaram 37$035. Se somarmos este valor à totalidade dos selos recebidos da C. Moeda, então teríamos: 3.069$750+37$035=3.106$785.

Como as vendas totalizaram 3.094$277, então o saldo era apenas de 12$508 réis, isto é, só recorrendo à venda de selos vindos de Cabo Verde, e portanto com Guiné pequena era possível dispor daqueles selos para vender, selos que atravessaram todo o período 1879/1885»

Conclusão de Oliveira Pinto. O diferencial entre o total de selos enviados para a Guiné e o total de selos vendidos só se pode explicar recorrendo aos selos enviados de C. Verde, que foram sobrecarregados “Guiné pequena” como anteriormente tinha por demonstrado. Constitui portanto A PROVA da existência das Guinés pequenas.

Como observação prévia cabe aqui dizer que o diferencial de 12$508 réis acima apontado, representa menos de 0.5% das parcelas de cuja diferença resultou. Qualquer pequeno erro nos somatórios pode só por si inviabilizar este resultado, assim como as conclusões que dele se pretendem tirar. É isso que vamos provar, mostrando que não se trata somente de pequenos desvios, mas antes de enormes variações, com origens diversas.

5.1 - A análise do Mapa 12

Vamos passar a analisar os dados que foram apresentados no referido mapa 12, pagina 102, que abaixo se reproduz. O cálculo das remessas fora feito no capítulo V – ponto 4 e os das receitas no capítulo VI – Ponto 4 do livro referido.

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Inserção 3 (mapa 12)
 

 

5.1.1 - Valor das Remessas

Este ponto não apresenta dificuldade de interpretação, dado que são conhecidas as datas e a quantidade de selos enviadas em cada remessa.

  Convirá lembrar que um numero considerável de selos enviados para o Ultramar, com goma, se inutilizou com a colagem das folhas devido à humidade. Este facto motivou pedidos e protestos da maioria das Juntas de Fazenda do Ultramar.

Quer isto dizer que não se pode inferir que a totalidade dos selos enviados tenham estado em condições de serem vendidos.

Aproveita-se aqui o ensejo de realçar o trabalho de investigação feito por Oliveira Pinto, em particular no A.H.U assim como na Casa da Moeda, que lhe permitiram descobrir as requisições da Junta da Fazenda da Guiné, e não só confirmar os dados de Pires de Figueiredo, como mostrar os originais dos documentos, o que constitui uma importante contribuição para a história postal da Guiné. O quadro resumo que se apresenta abaixo é o que vem ilustrado na página 52 do livro.

I4
Inserção 4
 

 

5.1.2 - Valor das Receitas

É este o ponto principal e o mais controverso do trabalho apresentado por Oliveira Pinto. É também o de critica mais delicada, dado o número de parâmetros que envolve e que necessitam de uma explicação prévia detalhada[5].

Na óptica deste artigo, optamos por apresentar de uma maneira resumida os pontos principais que consideramos errados, apresentados por O. Pinto na análise do «Valor das Receitas», no quadro da página 114.

I5 Inserção 5
 

Assim verifica-se que:  

1 - Nas fontes oficiais consultadas (Boletins Oficiais, Relatórios dos Governadores, Balancetes, etc.) são referidas na rubrica receitas interessando aos correios duas verbas distintas:

                                                                              1.1 - Venda de estampilhas do Correio

                                                                              1.2 - Rendimento do correio.

Destas duas verbas, somente a primeira, sempre inscrita no capítulo 1º (Impostos directos) pode ser afectada ao mapa referido, dado que a segunda é afectada ao capítulo 3º dos Próprios e Rendimentos diversos. Ora verifica-se pela análise dos dados apresentados, veremos que por diversas vezes são no mapa incluídas verbas do capítulo 3º.

Quer isto dizer, que a verificar-se tal situação se estão a somar parcelas que não são da mesma espécie, invalidando os resultados obtidos.

Por exemplo, nas receitas referentes ao ano económico 1882/3, as verbas apresentadas são o somatório da Venda de estampilhas com as receitas do correio, tal como vamos exemplificar.

No quadro das receitas do Correio referentes a Bissau, e relativas ao mês de Novembro de 1882, aparece inscrita a verba de 10$150 réis, e a referência de que este valor fora obtido a partir do B. Oficial da Guiné. E de facto assim é; no mapa estatístico e dos rendimentos apresentado pelo Direcção do Correio a 1 de Dezembro, que se reproduz abaixo, aparece a verba total de 10$150 réis, relativa ao mês de Novembro.

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Inserção 6

 

                  As verbas apresentadas nestes mapas devem em nosso entender ter a seguinte leitura:

1.       na correspondência “entrada”, entram rendimentos de carta porteadas, multadas e outros rendimentos.

2.       na correspondência “sahida”, entra a verba resultante da venda de estampilhas, (ou do recebimento em dinheiro quando da falta das mesmas), destinadas a franquear a  correspondência[6].

A discriminação destas verbas permite ainda constatar que as verbas provenientes da entradas e das sahídas de cartas são da mesma ordem de grandeza, pelo que de modo nenhum a verba do rendimento do correio pode ser tomada por verba de estampilhas vendidas, como faz  O. Pinto ao longo do seu estudo e em particular no mapa que apresenta na página 114.

Que o rendimento do correio seja o somatório das duas parcelas, é uma situação perfeitamente normal, dado que a Portaria Nº216, de 5 de Julho de 1882, se determina que a verba de Estampilhas do correio, que até então entrava para o total dos sellos (cap.1º), devia passar a ser considerada como rendimento do Correio (cap.3º). O que não é permitido é incluir essa verba total numa outra que tem a ver somente com Estampilhas vendidas.                 

Também decorre desta P.P, que não se deveria incluir uma verba única Estampilhas, como o fez Bissau pelo menos até 1882, tornando impossível separar o rendimento da venda das estampilhas fiscais das do correio.   

Resumindo, determinou o governador da Guiné em Julho de 1882:

         i.            separar as verbas de estampilhas de correios das estampilhas fiscais, sendo as verbas da venda das estampilhas do correio afectadas ao rendimento do mesmo correio.

        ii.            determinar aos directores das alfândegas que a escrituração do rendimento liquido do correio devia vir separada do aduaneiro, e que além disso esse  rendimento fosse detalhado em:                         

cartas porteada

multas

Rendimentos de outra proveniência (por ex. venda de cartas em refugo)              

E no intuito de serem cumpridas as normas postais estatísticas, era determinado aos Correios pela Circular Nº7 que deviam apresentar mensalmente, a partir de Maio de 1882, mapas estatísticos, segundo o modelo determinado superiormente, e que se apresentam na inserção 6.

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Inserção 7
 

Durante os anos de 1879, 1880 e 1881 e com excepção de Bolama, o valor das estampilhas foi o correspondente ao somatório da venda de estampilhas postais e fiscais. Só a partir de 1882, é que, como já referido, por determinação do governador, a diferenciação foi feita. Apresentar o valor total da venda de estampilhas, afectando-o ás estampilhas postal, constitui uma aproximação que o rigor das contas não permite. Este facto é tanto mais relevante quanto o valor da venda das estampilhas fiscais era em geral superior ao da venda das estampilhas do correio. (ver por exemplo, os quadros das páginas 104 a 107)

Onde a situação se complica consideravelmente, é na análise das contas de Bissau, relativas ao ano económico 1879/80. Como é possível entender que Bissau, que fora até ao fim de 1879 capital da província, tenha tido de rendimento do Correio somente a verba de 4$880, a contrastar com 34$400 de Cacheu?

O facto deste dado ter sido retirado do relatório do Governador, não implica que a «debilidade» do valor obstasse a uma análise crítica do mesmo, e a constatação de que restamos perante um erro no relatório do governador, retomado por Oliveira Pinto.

Uma nova procura no A.H.U, permitiu encontrar as contas de Bissau, relativas ao ano económico 1879/80, com o os seguintes resultados:

Rendimentos do correio (relativos a 11 meses[7])                                              73$883

Venda de Estampilhas (estampilhas fiscais e postais)                 110$307

Com os valores aqui apresentados é claramente impossível termos uma verba de 4$880 para Bissau! .

Finalizaremos este artigo com a nota seguinte:

Nas contas relativas ao ano de 1879, ano crítico para a análise feita por Oliveira Pinto, não aparece entrada referente ao mês de Novembro, ficando o leitor na dúvida se não houve venda de selos ou se não foi encontrada a folha correspondente.

Não terá havido receita /despesa em Guiné durante o mês de Novembro? Bastava ver os saldos transitados, para nos apercebermos que houve, pese embora não sabermos o detalhe das contas por não se ter encontrado ainda o documento.

A procura feita no A.H.U revela que de facto no balancete do mês de Novembro não houve verba alguma de venda de estampilhas do correio, situação aliás em consonância com a requisição da Junta da fazenda da Guiné, datada de 15 de Outubro de 1879, reproduzida a páginas 54, e onde é referido desde a 1ª linha: “Havendo n’esta  província grande  falta de estampilhas do correio, e parecendo-me urgente accudir a esta necessidade.....”

Conclusão final. Por todos os argumentos atrás desenvolvidos, podemos concluir que os dados do mapa referido, não são fiáveis, pelo que nenhuma conclusão se pode tirar dele. Consequentemente não pode servir de prova de uma teoria, que já por si só apresenta outras falhas atrás referidas.  

Muitos outros pontos haveria que detalhar, mas de momento ficamos por aqui. Que seja o leitor a ajuizar do bem/mal fundado das críticas e objecções que levantámos.

 

6 - Nota final

Neste conturbado tempo filatélico em que vivemos, creio ser oportuno deixar esta nota final.

Tenho pelo Sr. General Oliveira Pinto grande estima e amizade, cimentada por anos de convívio e interesses filatélicos comuns. Muito aprendi, e não poupei elogios ao trabalho de investigação desenvolvido e passado a escrito no livro publicado.

Criticar as conclusões apresentadas, contrapondo soluções alternativas, permite entrar numa saudável polémica eminentemente compensadora para o espírito inquiridor.

Nestas guerras, onde não se pretende vencedor nem vencido, há “malgré tout” um ganhador: o conhecimento adquirido que gostosamente se passa ao papel, para que os vindouros dele tomem conhecimento e lhe dêem o aproveitamento que merece.

                                                                                                                            

 

 

S. Pedro de Moel, Agosto de 2005.

 

 

 

 



[1] Os selos Coroa da Guiné. “Guine” pequena – os primeiros selos.

[2] Conhecemos dois selos com a mesma marca datada.

[3] Mas quando em Maio de 1885 (trânsito em Lisboa a 12 de Junho) escreve a um seu familiar em Inglaterra, e dada à falta de selos postais em Bissau, envia a carta não franqueada e com a marca «franca de porte». Se já comprado os Guiné Pequena, porque não os utilizou?

[4]

[5] Dado a extensão do assunto, remeteremos o leitor interessado para um outro estudo especializado sobre este ponto específico, a publicar brevemente nesta revista, sob o título: Guine Portuguesa. Um estudo histórico – postal (1879-1886).

 

[6] Convém aqui referir, que na época a que nos estamos reportando não dispunha a Guiné de estampilhas de porte de jornais e periódicos, de que por exemplo Bolama expedia um número significativo. O porte destes era satisfeito em dinheiro e seguramente aplicada a marca Franco de Porte.

[7] Na procura feita, encontramos todos os meses com excepção do de Junho de 1880, justamente aquele mês que figura no quadro da pagina xx., Este ponto é ilustrativo da dispersão dos dados por diferentes fontes, cuja análise se torna extremamente morosa e na qual o factor sorte é por vezes determinante.

 


Actualizado em Sábado, 26 Setembro 2009 00:11
 

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