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O início do Correio interior em Timor Luís Frazão 1. Introdução. Em 1994, quando da exposição filatélica EBORA 94, escrevi um pequeno artigo, intitulado «As marcas postais manuscritas de Timor e de Moçambique». Nesse artigo, era nosso objectivo chamar a atenção para a existência de marcas postais manuscritas aplicadas em selos de Timor e de Moçambique, apontando para algumas semelhanças entre as duas situações, que atribuíamos às campanhas militares em curso nos dois territórios ultramarinos. No caso específico de Timor, dado que algumas marcas vinham acompanhadas por um carimbo do Comando Militar, especulou-se sobre a possibilidade de haver uma ligação entre os serviços postais e o comando militar. A falta de legislação que desse suporte a esta ideia ou de qualquer documento postal, onde se pudesse fazer prova do que então se avançava, não permitiu ir mais além do que então se escreveu, e que se transcreve de seguida. AS MARCAS MANUSCRITAS DE TIMOR Como é sabido, desde o séc. XVI Timor dependia administrativamente de Macau; tal situação, ligada ao afastamento e desinteresse por parte de Portugal Metropolitano, fechou Timor num isolamento que se manteve até ao final do século passado. Do ponto de vista postal, esta dependência traduzia-se no encaminhamento da pouca correspondência de e para Timor por Macau, e posteriormente pelo aparecimento tardio dos selos postais de Timor, que não eram mais do que os de Macau com sobrecarga. Desse primeiro período, apenas Dilly, capital administrativa do território, dispunha de marca obliterante, a bem conhecida Coroa de Timor, com data a ser completada em forma manuscrita. Foi pelo Decreto de 15.10.1896 que Timor se tornou em Distrito autónomo, devendo-se este facto à acção política e governativa de Celestino da Silva, que sendo Governador de Timor de 1894 a 1909, marcou o início de uma nova era que, como veremos, deu orientação clara no sentido da criação de postos militares (Comandos Militares) no interior da Ilha, pelo que ordenou e dirigiu várias campanhas militares que duraram até 1902/3. Este facto, necessário para a abertura de vias de comunicação, para o desenvolvimento das culturas tradicionais do café e do sândalo, e para a tentativa de pacificação das tribus indígenas, dado que os diferentes reinos existentes estavam em permanente vestado de beligerância entre eles, também se traduziu no início da colonização branca de Timor e do consequente estabelecimento de postos de correio. Nestes postos de correio vendiam-se selos e era preciso inutilizá-los com um carimbo apropriado. É justamente neste periodo, com início em 1899 e que dura até 1903, que começam a aparecer marcas manuscritas a inutilizar os selos de Timor e de que apresentamos as que se conhecem sob a forma de quadro. Seguramente mais haverá e aproveitamos o ensejo para pedir a colaboração de todos os coleccionadores para nos ajudarem a completar o quadro seguinte[1] Estas últimas marcas, aplicadas por militares dos comandos de Viqueque, Maubara e Ermera para inutilizar os selos da correspondência expedida, vem corroborar a hipótese de que, nos locais onde só havia postos militares, ser a correspondência inutilizada à pena e por pessoal militar. É bom lembrar que nos primeiros tempos de penetração militar no interior de Timor, cada posto militar era constituido por um oficial e dois praças brancos e por 40 ou mais militares indígenas.
Estamos assim perante a inutilização de selos em cartas vindas de locais que nem aparecem no mapa contemporâneo de Timor e que provavelmente perderam a sua identidade postal quando o posto militar se deslocou para outro lugar ou foi simplesmente abandonado. 2. A portaria Nº37 de 11 de Julho 1898. O intervalo de tempo decorrido desde 1994 até 2005 permitiu actualizar a lista de marcas que então se apresentou, mas nem uma só carta ou postal veio trazer luz ao assunto. Acresce ainda, que o facto de não se publicar até 1899 o Boletim Oficial de Timor, ainda mais veio dificultar a tentativa de encontrar na legislação qualquer documento de apoio. Esta situação somente se veio a alterar em finais de 2005, com a descoberta da Portaria Nº37, que se ilustra de seguida. Este notável documento, acabou por dar completo esclarecimento às questões que se tinham levantado, assim como estabelecer que no dia 1 de Julho de 1898 se deu início ao correio interior de Timor, cabendo aos Comandos Militares a sua organização na sede dos respectivos Comandos. Toda a portaria merece leitura atenta, pois denota o cuidado que o legislador pôs em estabelecer para Timor um serviço postal interno, organizado em moldes modernos, indo ao ponto de legislar sobre o transporte de correspondência entre os régulos locais, e contemplar com sanções para quem as transgredisse. Não se pode contudo deixar de salientar o artigo 4º, de especial interesse para o marcofilista, e que afinal vem dar razão ao que se avançou em 1994, e que a imagem da figura 1 sugeria. C.M Viqueque C.M. Maubara Figura 1 Da aplicação das marcas manuscritas, nem sempre acompanhadas pelo carimbo do Comando, apresentam-se alguns exemplos na figura 2. Figura 2 Mas não ficava por aqui este projecto de organização postal do território. Numa tabela anexa ao documento, intitulada «Tabella reguladora da expedição do correio de Dilly para os diversos pontos do distrito e destes para Dilly», descreve-se em detalhe os dias e horários das expedições assim como a recolha de malas do correio nos pontos intermédios. Esta tabela que conjuntamente como um mapa de Timor contemporâneo vêm publicados num destacável, ajudarão o leitor a localizar os Comandos Militares, assim como os percursos que as praças de 2ª linha tinham que efectuar. Pode-se assim avaliar as dificuldades que seria preciso transpor para fazer chegar o correio aos diferentes pontos de Timor, ilha de pequena superfície onde cumes montanhosos e abundante vegetação não facilitavam a comunicação. Reconhece a maioria dos historiadores que foi a acção governativa de Celestino da Silva, (1894 a 1909) quem esteve na origem da pacificação de Timor, a que se seguiu o início do seu desenvolvimento. A carta que o Governador enviou ao Ministro da Marinha, acompanhando a Portaria acima, reflecte bem o estado de espírito reinante. A actuação de Celestino da Silva, em particular a sua preocupação em fixar os oficiais em Timor, cujo resultado já está patente na carta que acima se transcreve, não foi fácil, nem deixou de lhe criar inimigos. Luna de Oliveira[2] escreve a este propósito: "Muito se preocupava o Governador com a fixação dos oficiais na Colónia, visto que, à parte excepções, havia um certo desinteresse dos oficiais do antigo quadro da Província de Macau e Timor pelo progresso da ilha. Os que eram naturais de Macau vinham em geral desacompanhados da família e queriam retirar-se o mais cedo possível, recorrendo para isso a todos os meios. Em verdade, a vida era intolerável para eles e a divisão dos vencimentos por mulheres e filhos fazia-os passar privações, miséria até. Anémicos e febris recorriam às licenças da junta e prorrogavam-nas quanto podiam. Se desfrutassem de conforto outra seria a sua disposição. A experiência mostrava que os comandantes no interior, quando cercados de comodidades, com arranjo de suas hortas, criação de animais, sem parcelamento de soldos, eram belos instrumentos de colonização. Estreitavam as relações com os povos vizinhos e não raramente suas esposas, com afável trato, adquiriam as simpatias das esposas dos chefes indígenas e tornavam-se num poderoso elemento de ordem. Por este motivo, Celestino queria que a oficialidade e os sargentos se não demorassem em Macau. O quadro desta província era, então, inteiramente separado do de Timor, e entendia que só o Governo da Metrópole podia conservar os oficiais fora do seu posto de serviço. Neste estado, com carácter de permanência e resignados, só havia os que vinham de Portugal, porque não tinham amigos na sede da província e o ajudavam com zelo, nas suas funções. Um comandante militar necessitava ser um agricultor, um pai, ora benévolo ora severo, isento das paixões da gente que administrava, inspirando sempre um acrisolado patriotismo, dando o exemplo, o que obrigava a muito sacrifício, pois havia que olhar pelo gentio ignorante, educando-o e protegendo-o, base de uma colonização racional e auspiciosa. Das contrariedades que se lhe opunham, se lamentava ao Ministro, porque não dispunha de dinheiro. Além disso outros factores económicos e meteorológicos prejudicavam a sua governação. Na campanha que empreendeu, atribuiu a vitória a Deus Todo Poderoso. Ao terminar a primeira parte das operações, frente a Cová, estava exausto de munições e, nesses termos, pedia que lhas enviassem, para colher os resultados de tanta fadiga e não perder as vantagens obtidas. Como descanso de tanta lida, pediu ao Ministro, e foi-lhe concedida, autorização para visitar Sorabaia, Samarang e Batávia, com o fim de estudar os métodos usados em Java, quanto a culturas e construções, que os queria introduzir na colónia. O dinheiro e o material de guerra de reforço vieram em Agosto de 1896, pelo vapor “Memuir”. Eram 7.500 patacas, 213 armas e 52.000 cartuchos, o que deixou esgotado o depósito de Macau. Tomou, então, a peito a instrução primária em Liquiçá e Maubara, e mal dispôs dos fundos, activou a construção de escolas e o recrutamento de pessoal docente. Não lhe faltaram inimigos.” 3-. A primeira década do século XX. O artigo 4º da portaria 37 referia especificamente que…”enquanto não receberem os carimbos necessários para a inutilização das estampilhas…”dando assim a entender que estaria para breve a entrega de carimbos apropriados. Quando terão sido entregues, e a que comandos militares, os carimbos datados de Timor, de que se conhecem exemplares desde finais de 1902? A Portaria Nº115, datada de 15 de Dezembro de 1900, sobre a vigilância a exercer sobre o serviço postal, vem lançar alguma luz sobre as estações postais existentes á data da sua publicação. Figura 3 As marcas desses carimbos são do tipo que se apresenta na figura 3 (tipo 5.2 de Magalhães e Hourwick[3]). Figura 4 A consulta do Boletim Oficial não revela dados muito significativos, excepto quando anuncia a abertura de uma estação postal (EP), telephonico-postal (ETP), ou somente telephonica(ET[4]) em determinada localidade, referindo sempre o Comando Militar em cuja área se localizava. Nas figuras seguintes, mostram-se três desses avisos. Figura 5.1 Figura 5.2 (a data é 04.10.1904) Figura 5.3 A portaria Nº79 de 13 de Agosto de 1904, que abaixo se ilustra, refere ás obrigações dos chefes das estações postais, e em determinada altura diz: “….devendo os commandantes militares ter por muito recommendado este serviço, embora alguns não tenham a seu cargo o serviço postal…. Figura 6 È esclarecedor que progressivamente, o serviço postal tenha deixado de ser da responsabilidade dos Comandos militares e passaram a ser criadas estações postais, cujo serviço era entregue a civis. Terá sido nesta altura que estas estações passaram a ser fornecidas com os carimbos datadores? Qual o critério pelo qual determinada estação terá recebido um carimbo e outra terá continuado a inutilizar os selos de forma manuscrita? A resposta a estas perguntas ainda está por dar, limitando-nos de momento a arrolar no quadro abaixo, quais as localidades que usavam marcas manuscritas e quais as que dispunham de carimbo datador (com datas limites de utilização). Sempre que possível, por vir aviso nos B.O, será indicada a data da abertura da estação postal, telephónico-postal ou telephonica, pois que nos parece que poderá vir a ser de interesse.
Listas estações postais UPU 1909
| Marcas ms1898/1903
| Abertura de estação
| Carimbo tipo 5.2 (datas limites | Marcas ms 1911/1932 | | Aileu | Aileu 1900
| EP 12/1900 | Aileu 1912/30
| | Aipello | Aipello | ETP 02/1900
| Aipello 1904/06
| | | Allas | Allas 1903
| | Allas | | | Arituat | | | Arituat 1909
| | | Atsabé | Atsabé | | | Atsabé 1916
| | Balibó | Balibó | | | Balibó 1916/17
| | Batugade | | EP 12/1900
| Batugade 1902/5. Mais antiga datada conhecida
| | | Baucau | Baucau 1902
| EP 12/1900
| Baucau 1905/41
| | | Bebau | | | | | | Boibau | | EP 12/1900
| Boibau 1904/05
| | | Bobonaro | | EP 12/1900 | Bobonaro 1905/10
| | | Cailaco | | EP 12/1900 | | | | Cassa-Larisso | | | Cassa-Larisso 1932 | | | Comoro | | EP 12/1900 | | | | Cova | | | | | | Dilly | Sec. Gov. Dist. Timor 1900
| | | | | (H)Ermera | | EP 12/1900 | Ermera | | | Fat-Mean | | | | Fato-Mean | | Fohorem | Fohorem | | | Fohorem | Foz dos Lies
| | | | | | Hoto-Lia | Hato-Lia 1902
| EP 12/1900 | Hato-Lia 1907/22
| | | Hera | | EP 12/1900 | | | | Ilma | | | | | | Ilomar | | | | Ilomar 1921
| | Irlelo | | | | | | Laclo | | EP 10/1904
| Laclo 1907
| | Lae Vae
| | | Lae Vae
| | | Laleia | | EP 05/1905
| Laleia 1908
| | | Laclubar | Laclubar 1898 - 1901
| EP 12/1900 | Laclubar | | | Lacluta | | | Lacluta 1905
| | | Lautem | | EP 12/1900 | Lautem 1908/22
| | | Lebos | | | | | | Luiquiça | Luiquiçá 1902
| EP 12/1900 | Luiquiçá 1905
| | | Loikaro | | | Loikaro 1905
| | | Manatuto | | EP 12/1900 | Manatuto 1907/35 | | | Maubara | Com. Milit.1898/1902 | ETP 12/1900 | Maubara1910 | | | Maubisse | | ET 12/1904
| | | | Maukatar | | | Maukatar | | | Metinaro | | | | | | Motael | Motael 1902
| | | | | Nuno-Ura | | | | | | Oe-Kussi | | | OE-Kussi | | | Ossú | | EP 12/1900 | | | Ponte da Ilha
| | | | | | Railete | | EP 12/1900 | | | | Remexio | Com. Milit.
| EP 12/1900 | Remexio 1908/31
| | | Soibada | | EP 03/1900
| Soibada | | | Samé | | ET 05/1905
| Samé 1904/11
| Samé 1923
| | Suro | | | | Suro 1914
| | Suai | | | | Suai 1932
| | Taaki | | | | | | Tara-Dai | Tara-Dai 1900
| | | | | Tiarlelo | | EP 12/1900 | Tiarlelo 1905
| | | Tibar | Tibar 1902/3
| ETP 12/1900 | | | | Totoluro | | | | | | Tualo | | | | Tualo 1915/16
| | Tulicam | | | | | | Tuco-luli | Tuco-Luli 1903
| | | | | Viqueque | Com. Milit.1898 | | Viqueuque 1904/30
| | | Urgisso | Urgisso 1902/03
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QUADRO 1 No quadro acima: 1. Marcas manuscritas estão em itálico 2. Marcas manuscritas vermelho (descobertas posteriores a 1994) 3. Carimbos tipo 5.2 (figura 3), indicam-se as datas limites conhecidas. 4. Na 1ª coluna, nomes sublinhados não constam da lista UPU. 5. A procura das datas de abertura das estações não foi feita de modo sistemático, pelo que terá de ser completada. 6. Todas as onde aparece indicado EP 12/1900, significa que constam da lista da Portaria dessa data, podendo ter sido postas a funcionar em data anterior. 4. Os documentos postais. A escassez de documentos da posta interna de Timor, não permitem que se avance neste tema. Somente conhecemos dois, que embora do período anterior a 1 de Julho de 1898, parecem indicar que já havia transporte de correspondência entre Dilly e as sedes dos comandos Militares. A diferença com o período que tem início em Julho de 1898, parece ser que o serviço postal passou a ser organizado, deixando de ser ao sabor da necessidade ou da circunstância de haver alguém que para esses pontos se deslocava, a quem era entregue a correspondência. Os dois inteiros postais que se mostram nas figura 6 e 7, assim o parecem indicar. Figura 7 Figura 8 - (A seguir a Lautém o expedidor escreveu Comº Militar) Que o correio interior de Timor passou a ter utentes pode-se verificar pela leitura nos boletins estatísticos que a Direcção do Correio em Dilly publicava mensalmente. Na figura 8, mostra-se a estatística referente ao mês de Dezembro de 1902, com a respectiva divisão entre o movimento da posta interna e externa, e onde a correspondência recebida e expedida é sempre referida a Dilly. De notar a expedição de malas fechadas para os comandos militares, e era aí, pensamos nós, que se fazia a divisão da correspondência para os comandos subalternos e as estações postais. Figura 9 Figura 10 5. Conclusão. Agora que está provada a ligação entre a instituição do correio interior de Timor e os Comandos Militares do território, está aberto o caminho para um mais completo conhecimento do funcionamento do correio naquela longínqua parcela do território português. No Arquivo Histórico Militar, seguramente que se poderão encontrar mais dados relativos a este assunto. Aqui fica a “deixa”, na esperança de que alguém lhe queira dar seguimento. Para já, mais uma vez se apela ao leitor, para que nos faça chegar as imagens dos documentos de que dispõe, pois que é por estes que se começa e só assim se pode avançar neste temas de história postal. S. Pedro de Muel, 31 de Dezembro de 2005.
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