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Clube Filatélico de Portugal

Crónica de uma morte anunciada ou o fim postal das "Guiné pequenas" PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Escrito por Luís Frazão   
Quinta, 15 Outubro 2009 12:42

 

Crónica de uma morte anunciada[1] ou o fim postal das «Guiné pequenas»

                                                                                                                                                          Frazão

                                                   Luís Brito Frazão. FRPSL

 

Abstract. The recent discovery of postal file Nº 319, dated July 5th 1895, throws light in a conclusive manner on the Guiné surcharge in small letters. The aim of this article is to show, based on contemporary official documents, that in 1882 there was no postal need of postage stamps, and that the surcharge was effectively made, but not for postal purpose.

While in Portuguese Guinea, John Marsden who knew about the small Guinea through Moens «Le Timbre Poste», found the unused stock of these stamps, and eventually purchased it. After that, and in order to “make them” become postage stamps, he had a small number of letters addressed to him.

We state conclusively that there were no small «Guiné» postally used in the 1879-1885 time frame, but for the few letters posted to Marsden by his correspondent, the postmaster of Bissau, first from Bissau and later from Bolama, after the above mentioned period

Furthermore we are certain that part of the content of the letter Marsden addressed to Philips, in which he describes his discovery of the small guinea is pure phantasy, necessary to give credit to his own discovery, and certainly a very profitable deal.

 

 

Este trabalho é dedicado ao amigo e estudioso dos selos da Guiné, General Fernando Oliveira Pinto. Não fora o seu trabalho de investigação sobre este tema, a sua determinação em provar a primazia temporal das «Guiné pequenas» sobre as «Guiné grandes», documentado nas publicações que fez sobre este assunto, não teria sido possível chegarmos ao ponto em que nos encontramos hoje.

É por esse motivo, e por saber que para os espíritos iluminados não há reveses, que me atrevo a dedicar-lhe este trabalho, pese embora este mostrar de maneira inequívoca quão erradas estavam as conclusões que nos apresentou no seu livro: Os selos Coroa da Guiné. «Guiné» pequena - Os primeiros selos[2].    

 

1 – Introdução

No trabalho sobre a cronologia das emissões sobrecarregadas da Guiné, publicado no BCFP Nº 409, de Setembro desse ano, concluímos a primeira parte do nosso trabalho com a seguinte frase:

                “Conclusão. Todos os indícios parecem apontar para uma sobrecarga administrativa dos selos de Cabo Verde em depósito na Junta da Fazenda, requisitada e autorizada pelo governador em meados de 1882.

Parece-me que estamos em presença de uma sobrecarga feita sem intenção postal, portanto os selos são não emitidos,....

E assim tudo teria ficado, não fora a fortuita descoberta de um conjunto de ofícios, que vem, de uma maneira clara, esclarecer as dúvidas que tínhamos sobre a existência postal dos selos com a sobrecarga «Guiné Pequena», dúvidas essas que já nos tinham levado a aventar a hipótese de estarmos perante selos NÃO EMITIDOS.

É este trabalho que agora se apresenta, onde fica demonstrado que se a tenacidade e a boa argumentação ajudam a construir uma boa teoria, esta não passará de isso mesmo enquanto não aparecer uma prova documental que a sustente. E foi com isso mesmo que a “SORTE”, o terceiro elemento do investigador, nos quis favorecer.

Como vamos tratar de assuntos passados na Guiné entre 1879 a 1886, e recorrer a ofícios datados de 1895, teremos que fazer um enquadramento da questão tal como ela nos se apresentou.

 

2 - «O Philatelista», série III, nº4 Agosto 1895.

Faustino Martins, proprietário revista “O Philatelista” que tinha por redactor Fraga Perry de Linde, viu-se envolvido num negócio da venda de 3 selos da Guiné Pequena a um comerciante de Paris, que em determinado momento lhos quis devolver argumentando que estes eram falsos.

A troca de correspondência entre as duas partes, com acusações e ameaças, pode ser lida no extenso artigo que Perry escreve no número acima referido, e que em concreto, nada tem a ver com o assunto que vamos tratar. O nosso interesse começa nas linhas finais desse artigo, quando Perry escreve: “N’este ponto temos de abrir um pequeno parenthesis histórico.”

É a partir desta frase, que vamos reproduzir o que na revista veio publicado.

fig1afig1b 

Neste texto faz o redactor do «Philatelista» algumas afirmações significativas:

                1.- Reconhece que não existe nenhum documento oficial que autorizasse a sobrecarga «Guiné Pequena».

          2.- Diz ainda...”da circulação postal daqueles selos, o que não deixa de ser uma afirmação curiosa!

                3.- Confirma a circulação desses selos, «pois recebemos várias cartas franqueadas com eles.»     

                4.- Lembrou-se de contactar com o Governador da Guiné da época, Pedro Inácio de Gouveia.

                5.- Relata uma conferência que teve com o Governador, e escreve que este reconheceu ter mandado apor a referida sobrecarga, em meados de 1882, devido à falta de selos de várias taxas em Bolama, em selos de Cabo Verde que existiam no cofre da Província.

                6.- Diz ainda ter o Governador referido que devia existir na secretaria do Governo da Guiné nota oficial dessa resolução.

                7.- Por outro lado diz que mostrou ao governador os selos devolvidos de França (referência ao negócio atrás referido),  e que este « examinando-os declarou que eram authenticos»)

                8.- Diz, e pela importância reproduzimos do original:

                “Tratámos, pois de requerer para que essa authenticidade fosse officialmente comprovada, e o Sr. Ministro da Marinha, deferindo o nosso requerimento, mandou que o actual governador da Guiné remetesse para a metrópole copia do registo da ordem do Sr. Conselheiro Gouveia, para nos ser dada certidão della.

                Só depois d’isso é que, officialmente o Sr. Conselheiro poderia attestar sobre a authenticidade dos exemplares submettidos ao seu exame.”               

 

3 - O Processo Nº319 de 5 de Julho de 1895

A primeira peça do processo é justamente o requerimento a que Perry de Linde se refere no ponto 8, datado de Lisboa de 25 de Maio de 1895.

Processo Nº 319 5-7º-95

                A redacção do «Philatelista» jornal legalmente habilitado que se publica n’esta cidade e cuja administração se acha instalada na Praça Luis de Camões nº 35, segue a especial orientação de fazer história documentada, das diversas emissões de selos postais de Portugal e suas Colónias e para isso tem coligido dados importantes colhidos de diplomas officialmente publicados.

                Todavia dá-se uma circunstância que invalida os esforços até agora empregados para historiar por forma autentica uma determinada emissão provisória de sellos da Província da Guiné Portuguesa.

                Da deliberação do Governador daquela Província que autorizou essa emissão não existe diploma algum officialmente publicado. Por isso e podendo o supplicante apresentar ao conselheiro Pedro Ignácio de Gouveia, ex-governador da província da Guiné Portuguesa, alguns selos da referida emissão que o mesmo autorizou quando exerceu aquele cargo,

                Pede a Vª Magestade haja por bem autorizar o referido Conselheiro a attestar o que sobre a autenticidade dos mesmos se lhe offerecer.

Joaquim Fraga Perry de Linde

Lisboa, 25 de Maio de 1895.

Verifica-se pela sua leitura, que no requerimento acima, pretendia, como referiu Perry de Linde,  « .. authorizar o referido conselheiro a attestar o que sobre a authenticidade dos mesmos se lhe offerecer.»

                A 3ª secção do Ministério da Marinha e Ultramar, a quem o requerimento foi enviado, emitiu o seguinte parecer 10 dias depois.

 

3ª.  Secção

319/18-9-95       Peça-se a informação para a Guiné.ª

Officio em 5/7

                No requerimento junto pede o redactor do «Philatelista» que seja autorizado a conselheiro Pedro Ignácio de Gouveia a attestar se foi autorizada uma determinada emissão provisória de sellos da província da Guiné.

                Não me parece que se deva autorizar o que se pede.

                Diz-se que não há diploma algum officialmente publicado que autorizasse a emissão e bastaria essa declaração para que se me suscitassem dúvidas acerca da conveniência de anuir ao que se requer.

                Esta declaração porém obriga-me a propor a V.Exª. que se peça para a Guiné informação sobre este facto que se me afigura irregular.

                Além desta consideração há ainda a notar que o requerente nem sequer apresenta exemplares de sellos de que se trata e julga sufficiente mostra-los ao Sr. Pedro Ignácio de Gouveia.

                O attestado que se pede, autorizado por despacho official, seria sufficiente para dar aos tais sellos um valor excepcional.

                Se o requerente quer apenas uma informação para a história que diz estar fazendo das emissões de selos postais, obtenha pelo modo que julgar melhor os esclarecimentos de que precisa, mas não com a responsabilidade official que indirectamente procura conseguir.

                Parece-me pois que sobre o caso se deva mandar proceder a averiguações na Guiné e que só em vista della e se algo for conseguido se poderá passar certidão do modo por que havia sido autorizada a emissão que se refere no requerimento.

                V. Exª resolverá.

                                                                                                                             Lisboa, 4 de Junho de 1895

                                                                                                                                             ... de Carvalho

 

Neste documento, é claramente rejeitada a ideia de validação dos selos por parte do Governador. A argumentação avançada, em especial em relação ao seu valor acrescentado, caso o atestado pedido fosse autorizado por despacho oficial, revela clarividência por parte do seu autor. A conclusão lógica, de se mandar proceder a averiguações na Guiné, conforme sugerido no último parágrafo, foi aceite superiormente, pois que a manuscrito aparece: «Peça-se a informação para a Guiné. Ofício em 5 de Julho.»

O processo assim informado passou a ter o Nº319.

O intervalo de tempo decorrido entre 4 de Junho e 5 de Julho, deverá ter sido o necessário, para junto do redactor do «Philatelista» se obterem as informações necessárias afim de identificar claramente qual a emissão produzida localmente a que o mesmo se referia, além de permitir a este apresentar alguns dos selos sobrecarregados, que até então não fizera, conforme explicitado na informação acima.

Não conhecemos o texto da resposta ao requerimento de Perry que ele declara ter recebido do Ministro da Marinha. Também ainda não encontramos o teor do ofício enviado de Lisboa para Bolama, muito embora tenhamos a resposta.

Avancemos agora para a 3ª e última peça deste processo, a resposta que o Governador da Província dá, no seu ofício Nº206 de 24 de Outubro.

Serviço de 1895. Secção do Pessoal Nº206

                Tenho a honra da resposta ao officio de V.Exª.nº 379/319 da 3ª repartição do Ministério ao digno cargo de V.Exª enviar com a informação cópia da nota nº79 da Direcção da alfandega d’este distrito a quem pedi as necessárias informações, nada mais podendo acrescentar sobre o assunto.

                                               Secretaria do Governo do Distrito de Bolama

                                                                              24 de Outubro de 1895

                                                               O governador   (segue assinatura)

A este ofício vem anexada a informação prestada por Cezar Correia Pinto, chefe do serviço postal da Guiné, que é do seguinte teor:

                Cópia.

                Alfândega da Guiné Portuguesa

                Nº79 Bolama 19/8/1895

                À Secretaria do Governo.

                Cabe-me accusar a recepção da nota déssa secretaria sob o Nº744 de 7 do corrente cobrindo o offício da 3ª repartição da D.G.U nº379 e 319 de 5 de Julho pretérito.

                Em resposta e relativamente ao assunto do supracitado offício devo dizer a V.Exª que durante o período indicado anterior a esse período não teve lugar nesta província emissão alguma provisória de estampilhas postais.

                Sirvo na Alfândega e Correio desde 1878 e durante todo o tempo decorrido até ao presente, que me conste, emissão alguma de sellos postais foi feita com ou sem autorização do Governo da Metrópole, não constando da escripturação, entrada para o Correio durante todo o tempo que esteve anexo à Alfandega e depois da separação, de sellos a que o offício alude.

                 É o que se me offerece dizer.

O chefe do Serviço Postal.

Cezar Correia Pinto

20/8/1895

Neste ofício, é com toda a clareza afirmado que «não teve lugar nesta província emissão alguma provisória de estampilhas postais». E quem o afirma é Cezar Correia Pinto[3], que, para não restarem quaisquer dúvidas quanto à sua habilitação em dar a resposta acima, faz questão em a complementar com a frase:

«Sirvo na Alfândega e Correio desde 1878, e durante todo o tempo decorrido até ao presente, que me conste, emissão alguma de sellos postais foi feita com ou sem autorização do Governo da Metrópole,, e ainda não constando da escripturação, entrada para o Correio durante todo o tempo que esteve anexo à Alfandega e depois da separação, de sellos a que o offício alude.

Este ofício vem assim por um ponto final no controverso assunto das «Guiné Pequenas», pois que esclarece que

Não existiu na província da Guiné uma emissão postal de selos de Cabo Verde com a sobrecarga «Guiné» em letras pequenas, nem deram entrada no correio os referidos selos.  

Não deixa de ser curioso e significativo, que nos números seguintes do «Philatelista», respeitantes aos ano de 1895 e 1896, não se encontre qualquer referência à resposta ao ofício por este apresentado ao Ministro, resposta que evidentemente não interessava, pois que ainda estava aberta uma polémica com o negociante francês que o acusava de lhe ter vendido os guiné pequena falsos.

È também de realçar que Pedro Inácio de Gouveia, tomou de novo posse do governo da Guiné em Janeiro de 1896, tendo-se mantido em funções até Agosto de 1897, data em, que parte para o reino por motivos de saúde.

Durante este ano e meio em que esteve na Guiné, numa segunda comissão de serviço, teria tido tempo e poder para averiguar qualquer facto relacionado com o assunto das “guiné pequenas”, se para isso Faustino Martins ou Perry de Linde o tivessem questionado. Curiosamente não o fizeram, ou então não nos deram a conhecer a resposta do Governador.

                Face ao que acima se transcreveu, poderíamos ficar por aqui, mas parece que ainda existem algumas tarefas a realizar para continuação do processo até ao fim:

1.       Situar o aparecimento dos selos de Cabo Verde com a sobrecarga Guiné Pequena

2.       Tentar explicar a actuação de Marsden, no contexto deste selos.

3.       Explicar o aparecimento das 3 cartas conhecidas, franqueadas com selos da Guiné Pequena.

4.       Retirar dos catálogos de selos postais (pelo menos do lugar que actualmente ocupam), os selos da Guiné com sobrecarga pequena.

Destas tarefas abordaremos detalhadamente as três primeiras, não deixando de fazer uma breve consideração sobre a última.

4 - Marsden e a Guiné

                É nossa convicção, com base nos documentos conhecidos, que em meados de 1882 terá sido proposto ao governador Pedro Inácio de Gouveia a devolução a Cabo Verde de uns selos que existiam nos cofres da Junta da Fazenda, que lá se encontravam depositados desde que foram retirados de circulação por terem chegado da metrópole os com a sobrecarga Guiné em letras grandes. Em alternativa a serem devolvidos a Cabo Verde, propôs o governador que, na imprensa do governo, em Bolama fossem timbrados com a palavra Guiné, e remetidos de novo para a Junta da Fazenda.

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È desta ordem que Pedro Inácio de Gouveia se lembrava quando da entrevista que deu a Perry de Linde, a ponto de avançar que devia haver registo desta determinação nos livros da Guiné.

E de facto havia, como Oliveira Pinto o veio a demonstrar com a descoberta dos documentos que de novo se reproduzem abaixo.

Nesta determinação, datada de 28 de Junho, «que tornava inútil a sua remessa aquela província..»,teria que se seguir naturalmente o processo de timbragem, de que Oliveira Pinto descobriu dois ofícios.

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Ins2b

Nestes dois ofícios, datados de 28 de Julho e de 30 de Novembro, são devolvidas à Junta da Fazenda, depois de devidamente “carimbados” os selos que de lá tinham sido remetidos à Imprensa da Guiné. A procura exaustiva nos livros da Guiné de outros ofícios, em particular do ofício nº816, que poderia esclarecer a quantidade de estampilhas que foram remetidas na remessa de Novembro, revelou-se infrutífera.

Uns escassos 3 meses após a primeira “timbragem[4]”, (a de 28 de Junho), aparece no Timbre Poste do mês de Novembro de 1882, a notícia do aparecimento destes selos, que foram apelidados de selos de Cabo Verde com a sobrecarga Guiné em letras pequenas. Não deixa de ser significativo, que o Timbre Poste só se refira às taxas de 200 e de 300 réis, justamente aquelas nas quais foi feita a timbragem.

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A referência seguinte somente aparece no Timbre Poste de Novembro de 1883, e fala dos selos de 5 e 20 réis com a sobrecarga”Guiné” pequena. O facto de na entrevista referida no «Philatelista», ter o governador associado essa operação à “falta de selos que se fazia sentir na altura...” que o teria levado a essa determinação, parece-nos que foi obra e conclusão de Perry.

Acresce ainda, na consulta ás receitas dos anos correios de Bolama, ordenadas por anos económicos, verificamos que no ano de 1882, não houve falta de selos, que somente ocorreu mais tarde, nos anos económicos de 1884/5 e 1885/6.

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No ofício de 1 de Maio de 1882, mandados de Bolama para Lisboa pela Junta da Fazenda da Guiné, assinado pelo Governador Pedro Inácio de Gouveia[5], e cobrindo requisições de selos postais, não é feita qualquer referência à falta de estampilhas, mas somente é pedido que estas «..tragam a legenda desta província e não a de Cabo Verde..»..

Não parece credível, que este mesmo governador, que assina a requisição[6] acima, seja o mesmo que autoriza a sobrecarga Guiné local, ainda por cima para fins postais. O governador Pedro Inácio de Gouveia sabia perfeitamente que tal operação não poderia ser feita sem ser sancionada por Lisboa, e posteriormente ser publicada no Boletim Oficial[7].

           Com a aplicação da sobrecarga, criou-se na prática mais uma “especialidade filatélica”, pois que alguém se encarregou de mandar uns exemplares para fora da Guiné, e daí para o Timbre Poste, que imediatamente o anunciou.

E foi no mesmo Timbre-Poste, que John Marsden, jovem solicitador da firma Graham de Manchester terá feito a sua descoberta, e terá tentado adquirir uns exemplares em Lisboa, em Abril de 1884, quando ia  para a Guiné. Entretanto (de 1882 a 1885) ficaram os selos esquecidos na Junta da Fazenda, até que Marsden, que após a sua chegada em Maio de 1884 começando a indagar sobre esses selos junto dos responsáveis locais, os terá descoberto, ou pelo menos identificado a sua existência nos cofres da Junta da Fazenda.

Terá seguramente tentado adquirir a totalidade desses selos, que de nada serviam à Junta da Fazenda, pois que não podiam ser utilizados como estampilhas do correio, nem numa emergência, tal como sucedeu com a falta de selos em meados de 1885, em que voltou a ser utilizada a marca «FANCO DE PORTE», em Bolama, e a inscrição manuscrita em Bissau. (Fig 1 e 2)

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Figura 1                                                                                                             Figura 2

Desconhecemos se as suas tentativas de compra resultaram de imediato, embora nos pareça que assim tenha acontecido, tendo tido que esperar por finais do ano de 1885, altura em que esses selos puderam passar para as mãos do seu correspondente na Guiné, que lhos terá enviado para Lisboa.[8]

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Figura 3

E foi nessa descoberta e compra que está todo o “mérito“ de Marsden, a que não deve ter sido estranha a possibilidade de realizar um negócio bastante lucrativo. Por um lado descobrira o paradeiro dos Guiné pequenas, que embora não fossem selos do correio, estavam identificados como tal na obra de referência da época «Le Timbre Poste».

Para passarem de facto a selos postais, somente era necessário provar a sua circulação postal, independentemente de a sua emissão ter sido ou não sancionada superiormente. E foi para conseguir esse objectivo que, em nosso entender, inventou a história da descoberta do famigerado envelope a boiar nas ondas do mar em Bissau, de onde fez a ligação com o Cacheu, onde supostamente as estampilhas estariam desde 1882. Mas para que não faltasse a prova da realidade postal, nada como enviar umas cartas - poucas -, porque os selos novos na altura valiam bem mais do que os usados para Lisboa, cartas que lhe eram dirigidas, e que poderia mostrar e que constituiriam a prova a legitimar os Guiné pequenas.

È aqui que entra, em nosso entender, Aníbal Barbosa Vicente, que foi director do correio de Bissau de Março de 1881 a Abril de 1886, e com quem Marsden manteve relações epistolares após a sua saída da Guiné, como prova o inteiro postal que se mostra na Figura 2, dirigido a Marsden para Lisboa. E foi justamente de Bissau, onde Barbosa Vicente era director do correio, que foi expedida a primeira (a mais antiga conhecida) carta com os Guiné Pequenas (Fig. 4)..

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Figura 4

Terá sido ele (Aníbal Barbosa Vicente) que finalmente conseguiu adquirir o stock de Guiné pequena, em Dezembro 1885 ou Janeiro de 1886, e lhe terá enviado os selos para Lisboa. A carta registada que expede em Janeiro de 1886, com o porte de 900 réis, demasiado rapidamente “rotulada“ de filatélica, pode ser uma carta pesada (19 portes) e conter os referidos selos. Para o director do correio de Bissau era fácil lançar no seu correio uma carta franqueada com os Guiné pequena, sem que isso levantasse qualquer suspeita.

As duas cartas seguintes (Fig. 5 e 6), justamente as que têm a erro de Moçambique, são já lançadas no correio de Bolama, para onde Aníbal Barbosa Vicente se havia mudado, terminada a sua comissão de serviço em Bissau.

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Figura 5                                                                                                        Figura 6

Cabe aqui fazer um parêntesis sobre a quantidade de selos que levaram a referida sobrecarga. Devem ter sido muito poucos pois na carta que Marsden dirige ao seu amigo Philips escreve:

                “In due course I got the stamps and the quantities, which amounted to about £40 in face value.

                There were no 50 reis, so I think it unlikely that a genuine copy exists unused and only two of the 10 réis yellow. Of the 40 réis, there were two complete sheets and a portion of the sheet of a sheet which luckily contained the error.

Vamos admitir, seguindo as afirmações de Marsden, que poderiam existir os selos seguintes:

Tentativa de cálculo dos selos comprados por ou para Marsden.
 5 reis selos
 10 reis 2 selos
 20 reis selos
 25 reis 
  selos
 40 reis
 2 folhas + ½ folha
 50 reis
 nenhum exemplar
 100 reis 
 folhas[9] + selos
 200 reis folhas + selos
 300 reis
 folhas +selos
 

Se admitíssemos que das taxas de 5, 20, 25, 100, 200 e 300 reis havia o equivalente a 1 folha e de 40 reis 2 ½ folhas, e que devia haver mais selos avulsos das taxas mais altas (100, 200 e 300 réis), é de admitir estar perante uma quantidade muito pequena de selos assim sobrecarregados .

A “legalização” dos selos da Guiné pequena, podemos considerada efectiva em 1900, pois num extenso projecto de decreto apresentado pela 3ª Direcção da direcção geral do ultramar, visando a reorganização e a moralização da actividade dos correios ultramarinos, é dito pela relator em determinado momento[10]:

Ins4 

Este texto garante e dá realidade aos Guiné pequenas, independentemente do ofício enviado para o reino, que atrás mencionamos. Reconheça-se em abono da verdade, que o relator não pretendia dar protagonismo a esses selos, mas apenas exemplificar o aumento de valor que qualquer especialidade filatélica podia criar, e despertar tentações no funcionalismo postal. Mas mesmo assim foi escrito, e assim ficou até aos nossos dias.

 

                5 - Epílogo

È curioso pensar, que durante mais de cem anos, ficou estabelecido que os Guiné pequenas existiram para fins postais, havendo somente uma polémica latente sobre a cronologia destes selos versus os de Guiné grande, a saber quais teriam sido emitidos em primeiro lugar.

E nunca será demais recordar, que não fora o trabalho de Oliveira Pinto, com a sua sistematização de todos os dados conhecidos, aliada à descoberta de muito outros inéditos, muito provavelmente assim teria ficado “ad saecula saeculorum.”

Muito ainda se poderá escrever sobre estes selos, mas cremos chegado o momento de se concluir que não são selos postais, e que portanto não devem figurara nos catálogos ao lado dos Guiné grande. Por outro lado, e dado o interesse suscitado desde sempre por estes selos, aliado ao facto de, para além de uma tiragem diminuta, somente poucos exemplares existirem circulados, não se vê razão para eles não serem classificados como “Não Emitidos[11]”, dando-se-lhe a valorização que a sua raridade merece.

Neste último ponto parece ser necessário fazer uma análise cuidadosa à única folha existente (a folha de 100 réis), afim de determinar qual o tipo de timbragem que foi aplicado na imprensa do governo, em Bolama, e assim tentar separar o “trigo” do “joio”, pois estamos convencidos que a maioria dos selos conhecidos, quer novos quer usados com a sobrecarga «Guiné» pequena, são falsos.

 

                                                                                                                                                             Lisboa, 19 de Fevereiro de 2006

 

 

 

 

GUINÈ PEQUENA. Na capa e no artigo publicado no B.C.F.P Nº 409, vem reproduzida uma carta sem se tenha referido a sua proveniência: From the Tapling Collection held at the British Library, Philatelic Collections". Pelo lapso apresentamos à British Library as nossas desculpas.


[1] Agradecemos a Gabriel Garcia Marquez ter-nos facilitado a escolha do título deste artigo.

[2] Fundação Albertino Figueiredo para la Filatelia. Madrid 2003.

[3] Foi também tesoureiro da Junta da Fazenda, em Bolama, de 11 de Novembro de 1884 a 29 de Agosto de 1885, altura em que foi substituído por Júlio César Jansen Verdades, que desempenhou essas funções até finais de 1886.

[4] Nos ofícios são utilizadas indiferentemente as palavras «carimbagem» e «timbragem»

[5] Este tomara posse  em 17 de Dezembro de 1881.

[6] Oliveira Pinto. “ Os Selos Coroa da Guiné” , pag. 68/69.

[7] Mesmo em Macau, as alterações ocorridas em 1884 e 1885, foram ordenadas pelo governador e sancionadas a posteriori por Lisboa, após notificação por parte do Governo local

[8] Marsden tinha saído da Guiné para Lisboa em Maio de 1885.

[9] Marsden não refere a folha de 100 réis, que ainda hoje existe.

[10] Por gralha está escrito 1897 em vez de 1879.

[11] Na realidade, não se trata de selos postais “não emitidos”, mas sim de selos postais de Cabo Verde, onde foi aplicada uma sobrecarga, mão não com o intuito de serem utilizados postalmente.

Actualizado em Domingo, 15 Novembro 2009 19:11
 

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