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Clube Filatélico de Portugal

As primeiras emissões sobretaxadas de Macau (1.ª parte) * Fevereiro de 1884 a Dezembro de 1885 PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Escrito por Luís Frazão   
Quarta, 27 Janeiro 2010 21:19

 

 

As primeiras emissões sobretaxadas de Macau (1.ª parte)

(Fevereiro de 1884 a Dezembro de 1885)

 

                                                                                                                                                     Luis Frazão
                                                                                                                                                           Luís Brito Frazão

 

          Abstract. The first surcharge on postage stamp of Macau, having occurred at the same time as the issue of the first postage stamps, was not well received by the philatelic community. But, when a few months later, several other denominations appeared, an open critique was made, suggesting that these issues had only the commercial purpose of selling stamps, deceiving the collector. The aim of this paper is to verify these allegations, and based on contemporary official documents show conclusively that there was a shortage of postage stamps in Macau; that in due time the local government asked several times for more stamps to be sent from Lisboa, and having no reply from the Portuguese capital, they had to face the situation, that occurred several times, by the use of a surcharge.

 

 

1 – Preâmbulo

                A introdução dos selos adesivos em Macau, que ocorreu em 1 de Março de 1884, consequente à entrada em vigor de um novo regulamento postal provisório, veio trazer uma nova realidade aos utilizadores do correio com a da franquia das suas cartas com selos próprios de Macau, deixando de ser utilizados os de Hong Kong que desde 12 de Setembro de 1864 eram (tinham de ser) aplicados na correspondência.

 Mapa Macau

Nunca será de mais recordar que esses selos do correio (do tipo Coroa) já se encontravam em Macau desde 1877, à espera que uma determinação superior ordenasse a sua utilização[1].

Quando finalmente esse momento chegou, que mereceu o aplauso do público e dos meios de comunicação da província, rapidamente as autoridades postais de Macau verificaram que os selos de que dispunham, somente chegariam para satisfazer os pedidos do público (utilizadores do correio e coleccionadores) durante os primeiros meses, pelo que tiveram de oficiar para Lisboa a pedir nova remessa.

Acresce ainda, que a taxa de 80 réis não fazia parte dos selos recebidos, pelo que também para essa taxa foi feito o pedido correspondente.

A falta de resposta por parte das autoridades de Lisboa, obrigou ao recurso, ordenado pelo Governador de Macau, de se aplicar sobretaxas nos selos que se encontravam em stock, dando origem ao aparecimento de três emissões sobretaxadas, que a comunidade filatélica internacional imediatamente apelou de abusiva, chegando mesmo a avançar que estas tinham como objectivo único “apanhar” o dinheiro dos coleccionadores. Afirmava-se ainda que as sobretaxas não correspondiam de facto a qualquer falta de selos necessários à franquia de correspondência.

Estas insinuações foram aceites pela comunidade filatélica nacional, com a honrosa excepção de Faustino Martins, e assim ficaram registadas e conhecidas.

È a história desse período, que agora conhecemos graças à descoberta da correspondência[2] enviada pelas autoridades de Macau à 3ª Repartição do Ministério da Marinha em Lisboa, assim como as respostas que Lisboa deu (ou não deu), que nos propomos apresentar neste apontamento. Veremos, como muitas vezes acontece, que a realidade ultrapassa a ficção.

 

2 - O período anterior a 1 de Março de 1884

A 5 de Fevereiro de 1884, o Governador de Macau, Tomas de Sousa Rosa, enviou um ofício para Lisboa, que abaixo se transcreve. Este ofício foi recebido na 3ª repartição do Ministério da Marinha e Ultramar a 31 de Março desse mesmo ano, e foi-lhe dado o Nº 86.

 

“Recebido na 3ª repartição com o nº86 a 31.03.1884

Ofício ao director da casa da Moeda em 2.05.1884[3]

                Tenho a honra de comunicar a V. Ex.ª que entendo que é urgente a necessidade de estabelecer um regular serviço do correio n’esta província e não podendo ser posto em execução em todas as suas partes o regulamento que por este governo se mandou proceder por conter várias disposições que dependem da aprovação de V.Exª e de prévio acordo com administrações postais de diversos países, determinei pela minha P.P Nº11, tendo sido ouvido o Conselho do Governo e a Junta da Fazenda de que, a contar do 1º de Março p.f. se poem em circulação os selos de franquia portugueses que por esse Ministério foram enviados a esta província e de que o serviço do Correio se regule provisoriamente pela instruções anexas á referida P.P, que numa próxima mala enviarei a V.Exª.

                O estado actual do serviço do correio não podia por forma alguma continuar. Macau, como colónia portuguesa paz parte da «União Postal Universal» e o governo de Sua Magestade mandou já há alguns anos os selos de franquia necessários para que o correio desta cidade começasse a funcionar, e apesar de tudo isso são passados 5 anos depois da Convençaõ de Paris, e já quase outro tanto que os selos existem na Junta da Fazenda e o serviço postal continua a ser feito por uma succursal do correio de Hong Kong e a correspondência a ser franqueada com estampilhas inglesas acrecendo o vexame de terem os expedidores de pagar uma % de 8 avos por carta ao indivíduo encarregado de receber e expedir a correspondência.

                Nestas circunstâncias espero que V.Exª aprovará as medidas provisórias que tomei para regularisar d’alguma forma este serviço até que seja criada a repartição competente e devidamente aprovado o regulamento que muito em breve enviarei a V. Exª.

                Concluindo cumpre-me dizer a V.Exª. que não existindo na Junta da Fazenda selos de valor de 80 réis e sendo justo e conveniente que o porte de uma carta que d’aqui for expedida seja igual ao que vem da metrópole, resolvi também aproveitar as estampilhas de 100 réis, habilitando-as para 80 réis por meio de um carimbo aplicado no Thesouro da Junta.

                                                                                              Palácio do Governo de Macau, 5 de Fevereiro de 1884

                                                                                                                                O governador

                                                                                                                        Tomas de Sousa Rosa.

 

Pela leitura deste ofício torna-se claro que foi por iniciativa do Governador Tomas Rosa que se deu início à circulação dos selos postais de Macau.

No parágrafo final, que é o que mais interessa para o nosso estudo, o governador declara que não existindo selos de valor de 80 réis, «resolvi também aproveitar as estampilhas de 100 réis, habilitando-as para 80 réis por meio de um carimbo aplicado no Thesouro da Junta.»

Explica a razão para esta actuação argumentando que, «sendo justo e conveniente que o porte de uma carta que d’aqui for expedida seja igual ao que vem da metrópole»

È de realçar que o governador tomou as medidas que entendeu necessárias, que comunica ao ministro, esperando a aprovação deste para as medidas provisórias tomadas. Não restam dúvidas, que a partir do dia 1 de Março de 1884, já o primeiro selo sobretaxado de Macau se encontrava à venda ao público, não sendo assim de estranhar que uma das mais antigas[4] cartas franqueadas com selos de Macau, o tenha sido com esse selo. (ver figura 1)


f1
Figura 1

 

3 - Período entre 1 de Março e Dezembro de 1884

O facto de se terem posto em circulação as estampilhas em Macau, fez de imediato levantar o problema das estampilhas para Timor, que dependia administrativamente de Macau. Natural é assim, que quando primeira requisição de selos feita pela Junta de Fazenda de Macau, a 7 de Abril de 1884, esta contemple uma requisição de selos para Timor, assim como o selo de 80 réis para Macau.

È o seguinte o texto do ofício Nº 98 de 7 de Abril de 1884                                                                           

OFÍCIO Nº 98 de 7 de Abril de 1884.

Requisitam-se para servir no Correio de Macau e em Timor as estampilhas do correio seguintes:

 Taxa 
 Macau
 Timor
 5  5.000
 10  5.000
 20
  5.000
 25 
  5.000
 40   
  10.000
 50  
  5.000
 80
 40.000 10.000
 100  1.000
 200
  1.000
 300    
  1.000
                                                                                                                      Macau, 7 de Abril de 1884.

                                                                              Officio à Casa da Moeda em 15.7.1884[5]

 «Está satisfeita a requisição pela casa da Moeda e acham-se as estampilhas em depósito na 5ª Repartição»

A casa da Moeda enviou a 17 de Maio de 1884, 10.000 de 80 réis

 e a 14 de Outubro de 1884, 40.000 de 80 réis

 

                                                                                              ****

Não sabemos a data exacta da chegada deste ofício a Lisboa, mas o ofício para a Casa da Moeda tem a data de 15 de Julho de 1884. Tem na margem manuscrito um ponto muito importante que agora vamos realçar:

«Está satisfeita a requisição pela Casa da Moeda e acham-se as estampilhas em depósito na 5ª repartição.

A Casa da Moeda enviou a 17 de Maio 10.000 de 80 réis e a 14 de Outubro 40.000 de 80 réis.»

Os primeiros 10.000, pela data de envio de 17 de Maio, foram mandados fabricar no seguimento da recepção do ofício de 5 de Fevereiro, pois que pela sua análise se verifica que tem a inscrição manuscrita: «Ofício ao Director da Casa da Moeda em 2 de Maio»

Posteriormente foram fabricados mais 40.000 selos da taxa de 80 réis, todos enviados atempa-damente à 5ª repartição do Ministério.

Conclui-se assim que imediatamente após a recepção do ofício, e posteriormente também da requisição, oficiou o Ministério da Marinha à Casa da Moeda, e que esta procedeu á execução dos selos, enviando-os para a repartição encarregue da sua expedição. (5ª repartição)

 

****

Os meses iam passando em Macau, e perante um provável esgotamento de selos de algumas taxas, envia a Junta da Fazenda nova requisição, com data de 10 de Novembro de 1884, consignada no ofício Nº 147.

****

OFÍCIO Nº 147 de 10 de Novembro de 1884.

Têm a Junta da Fazenda da Província de Macau e Timor a honra de solicitar a V. Exª. que com a brevidade possível lhe sejam mandadas as estampilhas do correio consignadas na requisição que esta acompanha.

                                                                                                                 Macau, 10 de Novembro de 1884

                                               Deu entrada na 3ª repartição a 24 de Dezembro de 1884, com o Nº348

Requisição de 10 de Novembro de 1884

 Taxas
  Quantidades
 5    
 30.000
 10  
 15.000
 20 10.000
 40
 10.000
 80  5.000
 300 
  1.000
                                                                                    Offício para a Casa da Moeda a 27/12

                                                                          «Satisfeita pela Casa da Moeda»

A casa da Moeda enviou a 19 de Janeiro de 1885, as estampilhas acima requisitadas.

 

****

Desta vez, as estampilhas requisitadas são para Macau, e pela primeira vez se pedem taxas de 5,10,20,40 e 300 réis, para além de um reforço da taxa de 80 réis.

Registe-se que não se pedem selos de 25, 50, 100, ou 200 réis, pois que as duas primeiras taxas não tinham aplicabilidade na correspondência expedida de Macau, e dos dois últimos havia selos de sobra. Também em relação com este ofício sabemos que foi oficiada a Casa da Moeda em 27 de Dezembro, e que a encomenda foi entregue, pois que se lê: «Satisfeita pela Casa da Moeda em 19 de Janeiro de 1885»

 

****

 

Como a Macau não chegavam as estampilhas requisitadas, é enviado o ofício Nº.153, datado de 7 de Dezembro de 1884.

****

OFÍCIO Nº 153 datado de 7 de Dezembro de 1884.

Em ofício Nº 98, datado de Abril do corrente ano teve esta Junta a honra de enviar a V. Exª uma requisição de estampilhas para o correio de Macau e Timor; e em ofício Nº147 de 10 de Novembro foi enviada uma nova requisição para o correio de Macau.

O consumo de estampilhas no correio desta cidade tem sido tal que já se acha extinta a estampilha de 5 Reis, e as de 10 e de 20 que restam apenas chegam para um ou dois meses.

Assim urge que com a brevidade possível sejam satisfeitas tais requisições e que igualmente, para o futuro não haja difficuldade em satisfazer as requisições que ao director do correio são feitas muitas vezes......

Pede licença esta Junta, para mais uma vez solicitar a V. Exª. as ordens necessárias para que todas as estampilhas que de futuro forem enviadas não trazerem goma ......

                                                                            Deu entrada na 3ª Repartição a 16/1/1885, com o número 28

                                                                          «Nada consta quanto a esta requisição»

Requisição de 7 de de Dezembro de 1884.

 Taxas Quantidades
 5  
 50.000
 10     
 50.000
 20   
 50.000
 40    
 20.000
 80
 10.000

A Casa da Moeda não procedeu a entrega desta requisição, porque provavelmente não lhe foi enviada (este comentário é do autor destas linhas).                              

A leitura deste ofício permite constatar que em Dezembro já se tinham esgotado as estampilhas de 5 réis, e que as de 10 e de 20 réis só deveriam durar um ou dois meses. Pede a Junta urgência nas requisições já feitas, e lembra o problema da goma, pedindo para não trazerem goma.

Este ofício deu entrada na 3ª Repartição a 16 de Janeiro, com o Nº.28, e esta indicação aparece complementada com a inscrição «nada consta quanto a esta requisição», o que veremos adiante significa que não foi transmitida à Casa da Moeda.

 

 

 

4 - Dezembro de 1884. A 1ª falta de selos e a 1ª emissão sobretaxada.

 

O esgotamento da estampilha de 5 réis foi acompanhado pelo esgotamento da paciência das autoridades de Macau, pelo que o Governador autoriza a 4 de Dezembro de 1884, a primeira sobretaxa local de 5,10 e 20 réis. Esta alteração não foi publicada no Boletim Oficial, vindo no entanto referida na P.P.Nº 28 de Maio de 1885, da qual extraímos a parte referente a esta alteração.


i1  
 

Na figura 2 apresentam-se os selos alterados, tendo sido naturalmente escolhidas as taxas de 25 e de 50 réis, que não tinham aplicação.


f2a
f2b f2c
Figura 2
 

A 23 de Abril de 1885 novo ofício (Nº.20) é feito à 3ª Repartição.

OFÍCIO Nº 20 de 23 de Abril de 1885

Solicita a Junta da Fazenda d’esta Província que com a brevidade possível lhe sejam enviadas as estampilhas a que se refere a nota que acompanha o ofício Nº.147 de 10 de Novembro último, por isso que d’algumas taxas há já necessidade absoluta.

                                                                                                                                             Macau, 23 de Abril de 1885.

                                                                              Deu entrada na 3ª repartição a 6 de Junho de 1885, com o nº168

Já se oficiou neste sentido ao director da casa da Moeda»

«As estampilhas estão assim como as das outras requisições na 5ª repartição. Precisa esta da ordem para as remetter dizendo-se-lhe como e em que navio»

«Estão também em depósito na 5ª repartição Bilheters Postais para Macau

                                                                                   4000                                                     10 réis

                                                                                   1000                                                     20 réis

                                                   1000                                                     30 réis»

A Casa da Moeda enviou os B. P de 10 réis a 18 de Novembro e os de 20 e 30 réis a 4 de Dezembro.

 

                                                              ****

Mais uma vez a Junta relembra a requisição de 10 de Novembro e avança que “..por isso que d’algumas taxas há já necessidade absoluta”

São mais uma vez as notas manuscritas ao lado dos ofícios que nos vão ajudar, e neste caso, solucionar o problema. Assim está manuscrito o seguinte: «Deu entrada na 3ª repartição a 6 de Junho de 1885, com o número 168», «Já se oficiou neste sentido ao director da Casa da Moeda»

A resposta do director da Casa da Moeda, não se deve ter feito esperar, pois que ainda aparece uma outra inscrição: «As estampilhas estão assim como as das anteriores requisições na 5ª repartição. Precisa esta da ordem para as remetter dizendo-se-lhe como e em que navio.»

E como se esta informação não bastasse, também é dito que: «Estão também em depósito na 5ª repartição Bilhetes-postais para Macau

                               4.000 da taxa de 10 réis

                               1.000 da taxa de 20 réis

                               1.000 da taxa de 30 réis.»

Começa-se enfim a compreender a razão para a falta de selos em Macau. Embora requisitados e preparados a tempo pela Casa da Moeda, ficaram «encalhados» na 5ª repartição do Ministério da Marinha, aguardando instruções específicas para o seu envio!

 

5 - Maio de 1885. A 2ª falta de selos e a 2ª emissão sobretaxada 

           
 i2   i3

 

                Enquanto se aguardavam os selos, ou pelo menos uma resposta aos diferentes ofícios, autorizava o Governador, a 2 de Maio, que fosse efectuada nova emissão sobretaxada, devidamente publicada na P.P.N.º28, contemplando as taxas de 5,10 e 40 réis, com o mesmo tipo de sobretaxa que a anterior.

Esta Portaria Provincial foi acompanhada pela publicação de um anúncio, em português e em chinês onde era descrito em detalhe o valor e a cor das estampilhas alteradas. Causa alguma estranheza que a data da publicação deste diploma tenha sido posterior em 45 dias à data da Portaria, não sendo razoável pensar, dada a falta que faziam as taxas, que somente nesta data tenham postas à venda ao público.


f3a
                        f3b f3c f3d f3e                               
Figura 3
 

Continuava a Junta da Fazenda de Macau a renovar os seus pedidos de selos, o último tendo sido o ofício Nº38 datado de 30 de Junho de 1885.

 

OFÍCIO Nº 38 da Junta da Fazenda de Macau e Timor.

Em aditamento aos ofícios nº 98 de 7 de Abril, nº 147 de 10 de Novembro e nº 153 de 8 de Dezembro de 1884, solicita esta Junta da Fazenda a V. Exª que com toda a urgência possível sejam enviadas as estampilhas do correio consagradas na requisição que acompanham os citados ofícios, pois que há grande numero de requisições que não podem ser satisfeitas o que é altamente prejudicial para o serviço e para os interesses da Fazenda.

                                                                                                                                             Macau, 30 de Junho de 1885

                                                                                                                      Deu entrada na 3ª Repartiçao a 14/ 8/ 1885 com o nº 248

 

O texto deste ofício, referindo que «d’algumas taxas há já necessidade absoluta», fazia prever novo recurso à sobretaxa, o que veio a acontecer pouco depois.

 

6 - Setembro de 1885. A 3ª falta de selos e a 3ª emissão sobretaxada

A 30 de Setembro autoriza o governador uma nova emissão sobretaxada, de valores 5,10 e 20 réis, tendo a sobretaxa de 5 e de 10 réis sido feita num novo tipo. (ver figura 4)


i4 
 
f4a      f4b     f4c     f4d
Figura 4

 

7 - Dezembro 1885. O ofício de 20 de Agosto e a chegada de selos a Macau

O processo que temos vindo a descrever em detalhe, teve o seu desfecho em Lisboa, com um ofício do ministro da tutela, datado de 20 de Agosto.

 

i5

OFÍCIO de LISBOA de 20/8/1885.

Macau insta pela remessa de estampilhas do correio. A Repartição por onde costumam ser feitas as remessas, tanto das do correio como das do sello, parece que não tem encontrado o meio fácil de fazer estas remessas.

É certo porém que é altamente inconveniente ter-se criado um correio em Macau e não se mandarem para ali estampilhas.

É possível que nenhum dos alvitres seja aproveitável, mas com eles tenho por intuito concorrer para que não se demore este negócio.

Parecia-me que as estampilhas podem ser enviadas por um paquete da Castle Line para Inglaterra, e encarregar ali o nosso Consul em Londres para os embarcar para Hong Kong.

Podem aproveitar-se a ida do Director das Obras Públicas ou de alguem do seu emprego para confiar ao seu cuidado as caixas com as estampilhas.

O que parece urgente é que se autorize qualquer meio de remessa, embora seja um pouco dispendioso.

                                                                                                                Lisboa, 20 de Agosto de 1885

                                                                                                                             ?????? Carvalho

«Entreguem-se a cargo do director das obras públicas e expeçam-se sem demora.

                                                                                              Pinheiro Chagas»

«Recomendo este negócio muito particularmente à 5ª repartição e ao seu porteiro (?)» 3/9/85

Foi só na sequência deste ofício e da intervenção de Pinheiro Chagas, que exarou o despacho seguinte, «Entreguem-se a cargo do director das obras públicas e expeçam-se sem demora.», que as estampilhas foram enviadas para Macau, tendo saído de Lisboa a 21 de Novembro e chegado a Macau em finais de Dezembro de 1885, início de 1886.

As quantidades recebidas por Macau, são as que vêm indicadas abaixo, e correspondem às taxas que a Casa da Moeda tinha fabricado, e que estavam em depósito na 5ª Repartição.

 Taxas Quantidades
 5 réis 30.000
 10 réis(Verde[6]) 15.000
 20 réis(Vermelho)
 10.000
 40 réis (Amarelo) 
 10.000
  80 réis 55.000
 300 réis 
 1.000
 B.P.10 réis  
 4.000
 B.P.20 réis 1.000
 B.P.30 réis
 1.000
 
                                   f5a      f5b     f5c     f5d
Figura 5 (não se ilustram as taxas de 5 e de 300 réis)

 

                Esta requisição foi devidamente recebida em Macau, conforme o demonstra o ofício junto, enviado para Lisboa.

Como a Casa da Moeda não especificava a cor dos selos que enviava, foi preciso recorrer ao Boletim Oficial de Macau, datado de 11 de Fevereiro de 1886, e onde a Junta da Fazenda faz publicar o seguinte anuncio, onde diz que “ a partir desta data são postos à venda “….


i6
 

Conhecendo este aviso, não deixa de ser curioso ter-se conhecimento de uma carta franqueada com o selo de 80 réis, que ilustramos na figura 5, datada de 10 de Janeiro de 1886.


 i7a

 i7b

 i7c

 
f6
Figura 6
 

Como na notícia acima, também não vem referidos os selos de 80 réis, provavelmente porque só noticiaram as “novidades” (bilhetes postais e selos que mudaram de cor), podemos admitir que o selo de 80 réis entrou para venda logo que chegou ao Correio, ao contrário das outras taxas que tiveram que esperar pelo anuncio.

 

8 - Os primeiros selos de Timor

Referimos anteriormente, que na requisição de 7 de Abril de 1884, terem sido requisitados selos para Timor. Estes selos também ficaram retidos na 5ª repartição, e somente chegaram, conjuntamente com os de Macau, na remessa de 21 de Novembro. Estes selos foram depois enviados para Timor, em mão do Capitão Rafael das Dores que viajou a bordo do “África, que partiu de Macau a 11 de Março e chegado a Timor a 19 do mesmo mês, e foram postos à venda ao público no dia 20 de Março de 1886[7].

No relatório apresentado a 27 de Julho de 1887, o director da alfândega e do correio de Dilly escreve: “Em Março de 1886 chegaram a Timor os selos postais passando a franquia a ser feita por meio delles.”

Os primeiros selos enviados para Timor, foram os da 2ª emissão coroa de Macau, com a sobrecarga “TIMOR”.


f7
Figura 7

 

Esta referência aos selos de Timor, terá uma especial relevância, quando da publicação do artigo que continua o actual: As primeiras emissões sobretaxadas de Macau. 2.ª Parte (Abril a Outubro de 1877).

 

9 - Epílogo e conclusões

No quadro 1 vêm resumidas as datas dos ofícios de Macau, assim como as datas das emissões sobretaxadas em Macau.

 Requisições, datas DE Macau 3ª Repartição Officio para a C. Moeda Envia da C. Moeda para 5ªTipo sobrecarga
Envio para Macau /Chegada
 07.Abril 1884  15. Agosto 1884 17 Out 1884  
 10. Nov 1884  27 Dez 1884 19 Jan 1885  
 04 Dez. 1884     Sobrecargas  locais
 
  07 Dez 1884  Não enviado Não fabricou  
 Ofº 23 Abril 85 06.06.85    
 Of.º 30 Junho 85 14.08.85   Dº 3 Setº 85 
 2 Maio 1885    Sobrecargas  locais 
 30 Setembro 1885    Sobrecargas locais 
     

 21 Nov 1885 /finais Dez 1885.

 1 de Fevº 86 B. Postais 11.03.86 12 Março 86 04 Agosto 86  

Quadro 1

 

Pela transcrição dos textos originais, pode-se concluir sem a menor dúvida, que a responsabilidade do não envio para Macau das taxas que se esgotaram e que aí faziam falta é da 5ª repartição. Não se compreende como foi possível reter selos enviados pela Casa da Moeda durante um período de 18 meses, sem ao menos inquirir superiormente do destino a dar a esses selos.

Está assim ressalvada a responsabilidade da governação de Macau, que não fez mais do que lhe era exigido a bem do serviço público, fornecendo as estampilhas que o público pedia, e comunicando repetidas vezes para Lisboa os inconvenientes que essa falta acarretava.

O episódio que acabámos de descrever pode fazer pensar que tais circunstâncias não se voltariam a repetir. Veremos que em 1887 voltou a haver falta de selos em Macau, seguindo-se o inevitável recurso às sobretaxas.

 

No quadro 2 apresentam-se as imagens e as quantidades de selos alterados. Cada coluna corresponde a uma alteração.

  04 Dezembro1884 02 Maio 1885 30 Setembro 1885
fxx2
9.800 (3.800 é +6.000 e)

 

fxx1
10.000 (traço fino)

 

f4a
                   17.000
      
f2b
7000                        49

 

f3b
2.000   

 

f4b
17.000
 
 
f2c
 6.959 
 

 

f4c
10.000
 

 

f3c
5.000
 
                         Quadro 2
 


[1] Ver artigo em B.C.F.P Nº407 Março 2005.

[2] A.H.U. Caixas 2634 e 2635. D.G.U. SEMU sala 12.

[3] As inscrições a vermelho correspondem às notas manuscritas no documento apresentado.

[4] A mais antiga é datada de 17 de Março, dirigida a Lisboa e franqueada com o selo de 80 réis.

[5] As inscrições manuscritas nas margens dos ofícios são sempre apresentadas em itálico

[6] As cores foram juntas pelo autor.

[7] Ver Relatório do aspirante dos Correios Silveira e Costa.

 

 

Actualizado em Quinta, 28 Janeiro 2010 13:58
 

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