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Clube Filatélico de Portugal

A Marinha Portuguesa na I Guerra Mundial PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Escrito por Armando Bordalo Sanches   
Terça, 15 Setembro 2009 12:47

A Marinha Portuguesa na I Guerra Mundial

                    Bordalo            

Armando Bordalo Sanches

Desenhos de: Eduardo Silva

 

Este artigo e os seguintes têm como objectivo a actualização e divulgação dos anteriormente publicados em 1985 e 1986 na Revista do Clube “ Correio Marítimo ”.

A actividade desenvolvida pela Marinha Portuguesa – de Guerra e Mercante – na Grande Guerra, foi sem dúvida alguma deveras preponderante.

Evidentemente que a mesma, se enquadrou num enorme e variado raio de acção, designadamente, no transporte de tropas e respectivas escoltas, na defesa da costa marítima do Continente, Ilhas Adjacentes e de Cabo Verde, na defesa naval das Colónias, no envio de Batalhões Expedicionários a Angola e a Moçambique, na recuperação de Kionga, etc.

Contudo, em virtude do presente artigo ser um mini estudo de História Postal Marítimo – Militar, vamo-nos debruçar somente, por ordem cronológica, sobre alguns aspectos do tema em epígrafe.

Para melhor compreensão e por uma questão de esquematização, dividimos este estudo em duas partes distintas:

 

Parte I – As Expedições Militares às Colónias.

Parte II – A acção da Marinha na Europa.

 

Parte I – As Expedições Militares às Colónias

 

A notável actividade da Marinha Portuguesa começou a evidenciar-se muito antes da nossa participação directa na Grande Guerra, em 1916, quer no transporte de tropas expedicionárias a Angola e Moçambique, quer na sua escolta.

Vejamos então sucintamente e por ordem cronológica:

A 11 de Setembro de 1914, partem de Lisboa as duas primeiras expedições para Angola e Moçambique, a bordo do paquete “ MOÇAMBIQUE ” e do paquete inglês “ DURHAM CASTLE ”, escoltados pelo cruzador “ ALMIRANTE RÉIS ” e pelas canhoneiras “ BEIRA ” e “ IBO ”. A 19 do mesmo mês, chegam ao porto de S. Vicente – Cabo Verde, onde fica a canhoneira “ IBO ”; a “ BEIRA ” segue até Moçamedes – Angola, onde o “ MOÇAMBIQUE ” desembarca tropas a 1 de Outubro.

O “ ALMIRANTE RÉIS ” continua a comboiar o “ DURHAN CASTLE ” até Lourenço Marques, onde chegam a 16 de Outubro. Já a bordo do “ MOÇAMBIQUE ”, partem a 28 do mesmo mês para Porto Amélia, onde acostam a 1 de Novembro.

Apresentamos nas Figuras 1, 2 e 3, postais ilustrados dos três vasos de guerra atrás citados.

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Figura 1

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Figura 2 – Cortesia de Guilherme Rodrigues

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Figura 3 – Cortesia de Guilherme Rodrigues

Convém aliás, frisar, que já entretanto a 9 de Setembro saíra do Tejo, o cruzador “ S. GABRIEL ” com destino ao porto de S. Vicente em Cabo Verde, onde se manteve em serviço de vigilância até 19-11-1916, data em que seguiu para Luanda em missão de escolta a dois transportes de tropas. 

Instigados pelos alemães, que lhes chegam a fornecer armas, revoltam-se no Sul de Angola, os povos do Cuanhama e do Cuamato. Para dominar esta rebelião, recorre o Governo Português ao envio de um Batalhão de Marinha Expedicionário a Angola, que sob o comando do capitão-tenente Alberto Coriolano da Costa, embarca no paquete “ BEIRA ” em Lisboa, a 5 de Novembro de 1914, chega à Base de Moçamedes a 23 do mesmo mês e inicia no dia seguinte a marcha para o planalto de Huíla.

Reproduzimos nas Figuras 4 e 5 os frontispícios de dois postais ilustrados indelevelmente associados ao Batalhão de Marinha Expedicionário a Angola.

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Figura 4 – Remetido por um membro do Batalhão, em Chibia (Sul de Angola) – 25.12.1914-, para o Porto, onde chegou aos – 7.2.1915.

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Figura 5 – Cortesia de Guilherme Rodrigues * Postal ilustrado remetido de Lisboa – 21.4.1915-, pelo jovem Alberto, filho do comandante do Batalhão da Marinha, capitão-tenente Alberto Coroliano, para a base de desembarque de Mossamedes. 

 

Cerca de um ano depois, a 15.10. 1915, regressa a Lisboa o referido Batalhão, cujo comportamento nas operações que desempenhou, foi positivamente heróico.

A partir de 19 de Novembro, fica a defesa do estratégico porto de S. Vicente, em Cabo Verde, a cargo das canhoneiras “ BEIRA ”, “ IBO ” e “ BENGO ”.

A 22 de Novembro, segue de Lisboa para o citado porto de S. Vicente, a bordo do vapor “ CAZENGO ”, uma força expedicionária da Marinha.

A 1 de Dezembro, larga do Tejo o cruzador “ VASCO DA GAMA ” a escoltar os paquetes “ AMBACA ” e “ PENINSULAR ”, com reforços expedicionários a Angola que a 6 de Dezembro é substituído nas Canárias, pelo cruzador “ S. GABRIEL ”.

A 20 de Janeiro de 1915, sai novamente do Tejo o cruzador “ VASCO DA GAMA ” a comboiar os paquetes “ MOÇAMBIQUE ” e “ ZAIRE ”, com tropas expedicionárias a Angola, onde chegam a 5.2.1915.

Reproduzimos a título exemplificativo, nas Figuras 6 (Frente e Verso), um postal ilustrado do paquete “ MOÇAMBIQUE ” que ostenta uma raríssima marca postal utilizada a bordo do mesmo.

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Figura 6 – Cortesia de Guilherme Rodrigues

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Figura 6 – Verso * Postal ilustrado lançado no alto mar na caixa do correio do navio aos 13.7.1915 – situação de facto comprovada pela marca postal batida a preto, “ E. N. NAVEGAÇÃO/13.JUL.15/PAQUETE MOÇAMBIQUE ” –, foi prévia e devidamente franqueado com um selo Ceres de 1 Centavo do Continente (selo correspondente à nacionalidade do navio) e, posteriormente, obliterado pelo Correio de S. Tomé – 14.7.1915 – (1º porto onde o navio atracou) que o encaminhou para o seu destino, Águeda – 7.8.1915.

A 3 de Fevereiro, saem da barra de Lisboa os paquetes portugueses, “ AMBACA ” e “ PORTUGAL ” e, o francês, “ BRITANNIA ”, com tropas para Angola, escoltados pelo cruzador “ ADAMASTOR ”, que devido a uma avaria teve de regressar a Portugal.

Reproduz-se na Figura 7 um postal ilustrado do paquete/vapor “ PORTUGAL ”.

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Figura 7 – Cortesia de Guilherme Rodrigues

A 7 de Abril, regressa de Luanda o cruzador “ VASCO DA GAMA ”. A 13 de Dezembro, sai de Lisboa o cruzador “ ADAMASTOR ” com destino à Índia. A 25 de Fevereiro de 1916, dia em que a Alemanha declarou guerra a Portugal, encontrava-se o cruzador “ ADAMASTOR ” acostado no porto de Lourenço Marques, que devido à reduzida força naval que aquela Província então dispunha – no mar, a canhoneira “ CHAIMITE ” e no rio Zambeze e seus afluentes, as lanchas – canhoneiras “ SENA ” e “ TETE ” –, recebeu o seu comandante instruções para ali permanecer.

Reproduzimos nas Figuras 8 e 9 dois postais ilustrados das canhoneiras “ SENA ” e “ TETE ”.

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Figura 8

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Figura 9

Face às hostilidades abertas pelos alemães, é enviado para a nossa fronteira do rio Rovuma, no Norte de Moçambique, um reforço de tropas organizado em Lourenço Marques, que a bordo do cruzador “ ADAMASTOR ” e na companhia do Governador Geral de Moçambique e/ ou Alto Comissário de Moçambique, Dr. Álvaro de Castro, chega a 19 de Maio, à foz deste rio.     

A 21 do mesmo mês, agrega-se a estas forças, a canhoneira “ CHAIMITE ”, que fundeia dentro do rio. Posteriormente, no decorrer do mês de Agosto, cooperam estes dois vasos de guerra, na travessia do Rovuma das tropas do General Ferreira Gil.

A 28 de Maio de 1916, parte de Lisboa sob o comando do General Ferreira Gil e a bordo do paquete “ PORTUGAL ”, o primeiro núcleo da 3ª Expedição Militar a Moçambique; posterior e sucessivamente, partem as restantes forças expedicionárias, nos paquetes “ MOÇAMBIQUE ”, a 3 de Junho, no “ ZAIRE ”, a 24.6, no “ MACHICO ”, a 28.6 e no “ AMARANTE ”, a 8 de Julho, cuja chegada a Palma começa a 5 de Julho.

Apresentamos na Figura 9 o frontispício de uma artística brochura impressa na tipografia do paquete “ MOÇAMBIQUE ”, no decorrer do transporte das forças expedicionárias atrás referenciadas. 

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Figura 10 – Cortesia de Guilherme Rodrigues

Em fins de 1916, comboiado pelo cruzador “ ADAMASTOR ”, larga de Lourenço Marques para Moçambique, o paquete “ PORTUGAL ”, com prisioneiros alemães e material de guerra diversificado. A 27 de Abril de 1917, ocorre a revolta do gentio no Barué (Moçambique), que é sufocada devido à reacção imediata das nossas tropas; cooperaram nesta operação as guarnições do “ ADAMASTOR ” e da esquadrilha do Zambeze (lanchas “ SALVADOR ” e “ ZANHA ”. Reproduzimos na Figura 10 e um postal ilustrado do cruzador “ ADAMASTOR ” e na Figura 11 a raríssima marca postal usada a bordo do mesmo, N.R.P. “ ADAMASTOR/AUG 20 1917/CORREIO ”.

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Figura 11

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Figura 12

A 13 de Dezembro, no cumprimento do acordo celebrado entre os Governos Português e Inglês, desembarcam forças inglesas em Porto Amélia. A 29 do mesmo mês e ainda dentro do mesmo acordo, desembarca também no citado porto, o Regimento da Costa d’Ouro (Gold Coast Reg.).

Em princípios de 1918, fica o cruzador “ ADAMASTOR ” subordinado, para efeitos de operações, ao Almirante E. S. Fitzherbert, Comandante em Chefe das Forças Navais Britânicas, sediada na cidade do Cabo.

A 17 de Junho de 1918, parte de Lisboa a bordo do paquete “ LOURENÇO MARQUES ”, com destino a Moçambique, um Batalhão de Desembarque de Marinha, sob o comando do Capitão de Fragata Júdice Bicker e escoltado pelo contra-torpedeiro “ TEJO ” até às Ilhas Canárias, que chega a 22 de Julho a Lourenço Marques e a 1 de Agosto a Moçambique; a 3 deste mês desembarca no Mossuril, onde acampa e fica sob as ordens do General Van Dventer, Comandante em Chefe das Forças Aliadas contra os alemães na África Oriental.

A 25 de Agosto, embarca no “ LUABO ”, o Batalhão de Marinha Expedicionário a Moçambique, que em duas viagens é transportado para Quelimane, onde se agrupa a 27. A 23 de Setembro, parte a bordo do rebocador “ CAPITANIA ”, para desempenhar a única acção militar a que foi chamado a intervir, ou seja, a pacificação dos povos das regiões de Regone e Gilé, no distrito de Quelimane.

Os dois postais ilustrados que seguidamente apresentamos nas Figuras 13 (Frente e Verso) e na Figura 14, foram remetidos por dois membros do Batalhão, em 15.10 e 14.11.1918, de locais não identificados, mas por conseguinte, dentro do período em que decorreram as operações nas citadas regiões.

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Figura 13 (Frente)    

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Figura 13 (Verso)

Remetido em 15 de Outubro de 1918, exibe na Frente, batido a violeta, um dos dois tipos de carimbos de Censura Postal, conhecidos até à data, utilizados pelo Batalhão de Marinha – único exemplar que conhecemos deste tipo e que continuamos a designar por Tipo Quel. 3 -, O carimbo de Censura Postal de Lisboa, batido a preto, Tipo Lx. 4b e o carimbo batido a preto, Lisboa-Central/19.11.18; e, no Verso, batido a violeta, um dos dois tipos de carimbos Administrativos identificadores do Batalhão, conhecidos até à data, legendado, “ Batalhão de Marinha Expedicionário/A Moçambique ” – único exemplar que conhecemos e que passamos a designar por Tipo “ Moç./Mar. 1 ”.

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Figura 14 – Ex – Colecção Sanches

Remetido em 14 de Novembro de 1918, ostenta batidos a verde, os outros dois Tipos de carimbos conhecidos que o Batalhão utilizou, ou seja, o de Censura Postal, Tipo “ Quel. 2 ” e o carimbo Administrativo identificador da Unidade, legendado “ Batalhão de Marinha/Expedicionário a Moçambique ”, Tipo “ Moç./Mar. 2 ”. 

Após esta missão que durou cerca de três meses, recolhe o Batalhão a Quelimane, a 22 de Dezembro, onde é devastado por uma epidemia pneumónica e outras doenças, que lhe causam 85 mortes, incluindo 2 oficiais. A 15 de Abril de 1919, regressa esta força expedicionária a Lisboa a bordo do paquete “ LOURENÇO MARQUES ”.

A 1 de Julho deu-se o combate de Nhamacurra (Quelimane). Na eminência de um ataque a Quelimane, foi esta cidade guarnecida com 100 civis e 230 marinheiros e soldados de infantaria de marinha, desembarcados do cruzador “ ADAMASTOR ” e dos navios ingleses que estavam ancorados dentro e fora do porto. Colaboraram activamente na defesa de Quelimane, os cruzadores “ TALBOT ” e MINERVA ”, as canhoneiras “ THISTLE ” e “ REYNALDO ” e, vários caça-minas.

As mulheres e as crianças foram recolhidas a bordo de navios mercantes e os bancos e as casas comerciais de Quelimane, depositaram os seus fundos – cerca de 100 000 Libras Esterlinas –, a bordo do cruzador “ ADAMASTOR ”. Porém, os alemães não foram para além das terras da Companhia do Boror. Após esta longa comissão de serviço de cerca de 4 anos, regressa finalmente a Lisboa, o cruzador “ ADAMASTOR ”.

Actualizado em Sábado, 19 Setembro 2009 13:19
 

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